23 de maio de 2012

Soturna

Era desses tipos excêntricos que são apenas nas noites. Apenas. Certa vez, depois da exaustão da existência soturna, resolveu entregar-se a ela, ainda enquanto. Após a ausência no dia,  chegou  em casa, espalhou suas coisas, como de costume, procurou em vão por comida saudável, abraçou seu cachorro, não abriu a correspondência, deletou mensagens telefônicas sem ouví-las, desprendeu-se do dia,  apagou memórias, deixou de sentir seu coração apertado, não viu a lágrima, nem sentiu seu gosto amargo, leu as poesias que lhe mandavam (todas), olhou-se no espelho, pensou num banho, aqueceu-se por dentro, sentiu a pele, pois era assim que gostava. Entregou-se ao leito enquanto a noite ainda cedo. Em sua cama havia um anjo antigo, que sonhava. Viu seu sonho. Permitiu-se. E nunca mais acordou.

Nenhum comentário: