26 de outubro de 2011

Harpista

Aquelas fogueiras circulares chamando à dança as errantes almas noturnas para ecoar memórias esquecidas daquilo que sonha o mundo todo. É uma voz que me remete até lá. Posso sentir a dança, o movimento, o som da poesia da terra que se refaz aos pés de quem dança. O vento entoa um canto-melodia da escuridão. Levei a sombra profana que reconheceu-se sagrada então. Era apenas um véu. Sem distância. Ou fortaleza.

24 de outubro de 2011

outubros

então os ciclos existem.
cada um com sua medida.
curtos, longos, tardios, azuis.
são costuras da natureza.
então é preciso sensibilidade
para entender o que voa.
e é preciso fazer o caminho de volta
e saber-se.

19 de outubro de 2011

Se isso te consola, 
te digo que desconfio das intenções do vermelho. 
Desbotável.Tingido. Fingido até. 
Exposto ao sol, nem bem a lua. 
É pura razão dos olhos. 
Atente-se!

16 de outubro de 2011

Que eu seja aquele galho
Que da arvore despencou em desespero
Áspero e seco
E que pelo vento
Correu em direção à vida
Dançou pelos ares
E lá pelas tantas
Encontrou a imensidão
Do mar
E banhou-se!

13 de outubro de 2011

O peixe tem memória curta
mas pergunto-me se é capaz de sonhar
Assim, nesse curto espaço
que é o tempo que vive dentro
Desse aquário noturno

Entre certezas e desejos

É o caso que ainda não provei da coragem em seguir pelo único caminho onde percebo luz. Me entrelacei de um tal jeito em caminhos lúdicos que tudo agora esvazia-me a razão. Sabia-me até então. Acontece, para sobrepujar as ilusões do mundo. Hoje dei um passo importante, mesmo não acreditando no tempo. 

Por agora

É uma questão de ordem prática. O quanto posso suportar algumas coisas. É uma questão de respeito aos meus limites. Convicções. As coisas mais belas da vida pertencem ao campo do universo individual. Logo, não compartilho de muitas belezas que vêem os olhos alheios. Ao contrário. Algumas coisas me causam repúdio. É uma questão de ordem prática. A fluidez da vida me encanta. Cada dia mais algumas pessoas me mostram coisas belas. Mas algumas delas são enraizadas em grandes erros, que se sobrepõe a qualquer tentativa de ver beleza em seus frutos. Devo seguir outros caminhos. O encantamento é bom. Mas prefiro as questões de ordem prática. Não compactuo com visões alheias. Tenho minhas certezas  e meus sonhos, e isso tudo, me leva a outros caminhos. Também há beleza em outras estações, mais leves do que aquilo que me pedem para carregar sorrindo. Em nome de algo que nem sei ao certo se existe. Demasiada inocência cega é essa de naturalizar a vida, pois para mim, a vida não se fundamenta em compensações e culpa. Semearei meus campos e colherei eu mesma meus frutos. Nada pode substituir a leveza da alma. Em silêncio me distancio e dou adeus. Não posso com o peso alheio, não vejo beleza e é disso que mais necessita hoje minha alma. De ordem prática também é o discurso poético, que entrega a quem devo uma palavra, o meu mais puro sentimento. Assim como meus limites. Esgoto-me. Por agora.

12 de outubro de 2011

Lento é o tempo esse de subtrair a dor
Mas a imagem é bonita
Essa de ir caindo de você as quinquilharias frias
Pelo fio de herança

10 de outubro de 2011

acordada e 
levemente
sonhando

do azul das veias vermelho é o sangue que esvaiu-se de mim branca sem sopro de vida para suspirar pelo azul do céu acima do sol amarelo feito ouro de tolo em busca da vida fora do corpo  morto podre até a alma dilacerada pela dor da perda de um pedaço de vida pela ingestão de veneno que entra não pelas veias aquelas das quais escorre o sangue azul que nem é nobre mas pelas nuvens de pensamento não brancos mas negros como as cinzas que restam de um templo queimado e deixado ao tempo vento que sopra para além da vida que se esvai de mim como água corrente correndo fugindo de mim porque ando de mãos dadas e suadas águas  turvas com um coletivo de o que um dia chamou-se humano.

podem chamar do que quiser 
eu chamo de [ loucura ]
 aquilo que não 
sinto

8 de outubro de 2011

mais

A verdade é que você é um criança que não cresceu e precisa viver cercado de outras crianças que confirmem sua existência. Eu sou demasiada grande e não me encontro numa forma que caiba na sua existência. Por isso o lapso. 

meu amor inteiro

Para provar meu amor é preciso gostar das cores básicas da infância. Erro meu. Achar que amar era coisa de gente grande. Achei que o amor se bastava. Surpresa, ví que não estava só. Paralisei, pois aquilo tudo não caberia em mim. Veio com muito, e era pesado seu julgo ao meu espanto. Claro, o amor era meu. Cada um tem o amor que lhe cabe. O meu transborda, e ainda assim, é apenas meu. Alguém me olha também com espanto e me diz regras. Mede o tamanho do meu amor. È assim com o amor de cada um. Uma verdade inteira. Em respeito a ele, ao meu amor, nunca deixarei de amá-lo. Meu amor é muita coisa, não cabe em métrica, não vai ao vento, não se espalha. Meu amor é diferente daquele da métrica. Nem maior, nem pior. Em mim é sua morada.  Meu amor gosta das cores da infância,  e por ser amor real, não me pede provas.  

Tudo é uma inversão de valores. Cada um faz a sua própria conversão. Sem regras. Limites. Crime ou santidade. Nessa inversão todos os loucos apedrejados no dia anterior viram santos. Todos tem seu valor agora. Dito isso, converte-se ao breu da alma de quem vê parcial. Lógica ficou do lado de fora, não foi convidada. Assim como a realidade. Colhi maças na árvore. Foi-se o outono. Cada estação tem sua cor. É preciso entender. Porque algumas coisas, não podem ser convertidas. Liberdade é isso: deixar com que cada um perca-se na sua própria cegueira. Alguém estará ao lado, num gesto doce de compaixão e  sorrindo. Permita-se errar, e faça a conversão. Não há problemas. Para quem gosta do perdão, errar muito é ter a certeza de. Aos julgadores o desprezo, e toda razão tola. Alguém ligará no dia seguinte, e achará algumas sobras - engraçadinhas.

7 de outubro de 2011

o trabalho maior da alma não é o de aprender o mundo.
é o de esvaziar-se do mundo.

5 de outubro de 2011

Talvez eu mesma seja a manifestação de uma metáfora. De alguém que sonha. Mas independente de que matéria é minha composição, existo, de fato. É minha escolha dispensar explicações da ciência, do bem e do mal. Prefiro a liberdade do mistério, pois faço mais poesia sobre o que não sei. Posso colorir o mundo da cor que mais gosto. Posso usar mais exclamações e nem tantos pontos finais. Provei diversas vezes a realidade, toquei um mundo que é invisível aos olhos. Volto as vezes quando posso, ou consigo. Algumas graças me foram dadas. Queria muito. Ainda quero. Algum sinal de riso desponta em mim, timidamente, pois ainda estou em margem oposta (em raiz). Mas não desejo a existência além dos sonhos, isso me basta. É minha vida, vibro, absorvo e germino assim. Talvez caminhe mais e consiga chegar a outra margem, ou possa abrir as asas e voar além dela. Talvez.

3 de outubro de 2011

2 de outubro de 2011

Quando eu era criança fazia coisas de criança. Cresci, e presa a alegria do encantamento da fantasia, ainda faço coisas de criança.

[ Meu verbo querendo conjugar outros tempos ]

Mesmo sabendo que estava morrendo
Deu um passo a frente – pesado
Achando que a morte era infelicidade
Fugaz
Mesmo sabendo – pois foi dito
Que não havia caminho a dois
Foi atrás – dessa tal felicidade
a flor com espinhos
Não choro saudades
amores ou dores
A lágrima parou no meu olho
e não quer cair.