30 de setembro de 2011

Expectativa

A expectativa tem passos largos e vai sempre a frente. Mantém distância da realidade e por ter um ritmo diferente do real, tem sempre uma visão distorcida das coisas. A expectativa enquanto experiência do por vir, é um exercício de imaginação e por estar ligada a mente é capaz de provocar diversos tipos de sensações, das mais prazerosas, as mais doentias. A expectativa, embora duvidem, não está, de maneira alguma ligada a outros. Do contrário, pertence ao campo do individual. O outro até pode participar da construção da minha expectativa, mas somente pelo meu consentimento, porque sonhar a dois é um exercício duplo imaginativo, e portanto, duplicam-se as possibilidades de prazer. O tempo de vida da expectativa está, ao meu ver, diretamente relacionado ao nível de consciência que se tem. É uma medida simples: quanto maior a consciência, menor a expectativa (com relação a outros). O que está fora, no caso, o outro, nada pode me acrescentar e nada pode subtrair. A falta de consciência desse fato gera, então, a expectativa. É quando acredito que o outro pode me acrescentar alguma coisa, pode me fazer feliz, me elevar, e alguns muitos acreditam até, que o outro pode me ‘completar’, numa visão distorcida de que somos apenas ‘parte’, nos encontramos num caminho escuro. Não faço apologia ao ostracismo, de forma alguma. Sei da importância do coletivo e sei que somente nos tornamos quem somos, quando estamos em relação a outros. Porém, quando falo da expectativa, falo de algo ligado ao imaginário alienado da realidade, porque ninguém, de fato é responsável pela minha vida e muito menos pelas minhas expectativas. Se isso fosse uma verdade, viveríamos num emaranhado de expectativas que nunca se completariam, porque ninguém consegue, a menos que se anule totalmente (e isso não é possível para sempre) corresponder a expectativa de todas as pessoas com as quais se relaciona. Quando eliminamos as expectativas, damos chance para sermos surpreendidos pela vida, para o inusitado, e ainda mais, damos chance para que tanto nós, quanto as pessoas a nossa volta, sejam verdadeiramente quem são.  Sonhar é importante. Saber-se inteiro. Felicidade, é ter expectativas sim, mas para nos sabermos inteiros e únicos responsáveis pela vida que esperamos ser!

29 de setembro de 2011

Soa longe a voz do mundo. Não mais sou capaz de tocá-lo, embora ainda o sinta em dor profunda. Alguns olhares me fazem voltar no dia seguinte, tem alguma coisa de luz, que ainda encanta meu ser. Mas verdadeiramente não mais me sei aqui. 

28 de setembro de 2011

O que encantou foi a melodia do sonho. Nem palavra, nem imagem. O sonho. Aqueles, que viviam nele toda manhã. Era a continuidade do universo do mito. Eros. 

27 de setembro de 2011

É uma crucificação. Estendida sobre a cruz, braços abertos, pensamentos que sangram. Corpo em chagas. A cruz de hoje ainda tem quatro pontos. Liga, pela forma, todos os opostos. O coração está no centro também sangrando, mas ainda batendo. Presa a terra estão às ilusões do mundo, bonitas até, e passageiras. Cada pedaço do corpo sente a dor desse mundo. A dor, em seu extremo mostra uma luz, mas pelos olhos escorrem também sangue que ofuscam a visão. Momento solitário, porque na cruz, apenas se estende uma vida. São longas as noites da crucificação. Enquanto o corpo gela pelo vento que sopra, ouve-se o silêncio estendido pelo tempo. Nem gritos, nem gemidos. O desfalecer após um tempo, é lento e cuidadoso, reflexivo e dormente. Algumas crônicas aceitam a razão de que após o último raio de noite, é possível o despertar. 

26 de setembro de 2011

É o que vejo do lado de fora: barulho, cinzas, gritos, nuvens, sofrimento, dor, sangue, mágoa, lógica, ciência. Há muito tempo saímos do paraíso – voluntariamente. Houve um convite para saltar em direção aos extremos, viver os opostos, aceitar a espada que nos corta ao meio. Deveras humana é a dimensão que nos liga a existência enraizada no instinto. Acaso tem a formiga a possibilidade de compreender, por mínima que seja a volatividade do fogo do espírito?. E não teria o homem tornado-se formiga, ao trilhar o caminho cindido? Quais as certezas podemos acessar, verdadeiramente, ao fazer as mesmas perguntas moldadas pela mesma forma da natureza animal que nos encontramos enquanto apenas terra?. Alguns animais reproduzem-se sozinhos, outros ouvem sons que não posso ouvir, tem luz noturna, a cor violeta, sentem o tempo, a nuvem, a próxima estação. E mesmo não sabendo-se assim, como eles, me coloco num degrau acima, por julgar que a milha colônia, é todo o universo. Quando buscamos água em outras terras, para saber se por ali já houve/haverá vida, estamos projetando nossa limitação humana, estamos procurando outros ‘animais’, que precisam e são constituídos da mesma matéria que meu corpo. Vida, é o espírito que anima o corpo. O que é eterno não precisa ser alimentado, pois em essência é unidade. As necessidades existem pelo distanciamento da fonte. É o que vejo, entre os véus que me cercam também, aqui do lado de fora.

25 de setembro de 2011

Descubro que o sono tem a medida da minha saudade
É uma lança perdida nas mares do tempo, espaço único
Voando leve aos sonhos lembrança do que sou – em verdade
Tamanha coragem é preciso, para voltar aqui
Onde deixo minhas frágeis vestes do medo
Que gerou em mim a ilusão de ser, além da poesia onírica

22 de setembro de 2011


No templo do sol
Aquece um rio doce
Com margens largas
E horizonte ao sul
Da segunda curvatura
Onde o lençol da noite
Encobre
A luz que é toda
Verdadeira estrela


Porque você está em paz
Quando dentro de mim
Tudo é guerra
Anuncio o fim do nosso tempo.
E quando você se for de mim
Em busca de ti
E quando por caminhos contrários
Eu também
Me for de ti
Rumo a mim
Seremos a real experiência e unidade do amor

18 de setembro de 2011

Brejeiros e Condados

São algumas coisas que nascem com a flor, mas apenas quando é vento forte que se espalha vida afora. Para onde vai o sopro, ao infinito ou aqui do lado pouco importa. Tem o balanço de uma dança, o som de um verbo que se faz, o cheiro de sereno doce, que veste as manhãs enquanto muitos dormem, o gelado do campo em mãos pequenas, a doçura das coisas que aguçam os sentidos pela primeira vez. No movimento rumo a morada do sol, prestamos honras ao espaço vazio da memória.

4 de setembro de 2011

2011

2011. onze anos após o famigerado pseudo- fim-dos-tempos. permanecem. ela e toda a humanidade. encontra-se envolvida com palavras. conheceram-se numa noite insone. tropeço na arte. alguns dias são de primavera. nem todos. não poderia. conserva o hábito de dialogar com outras estações.o tempo. ah! o tempo. cobram-lhe um fruto. antes do fim do seu tempo.

3 de setembro de 2011


Há um deserto dentro de mim. 
Outros tantos já falaram. 
Não do meu
nem dos seus
- acredito -
Apenas no deserto que paira.

2 de setembro de 2011

Ares – não de guerra, de fogo

Ecoou meu verso em fogo. Refletiu meu grito. Aqueceu o abismo do silêncio. Foi raiz e semente. Devolveu em flores o que brotou. Feito jardineiro cultivando palavras em pólen. Trouxe de longe, Ares e os ventos da criação, vermelho. Me deu a mão, aquela livre para tocar. Não era de primavera aquele tempo, era de estrela. Em qualquer estação se aquece a alma.  

1 de setembro de 2011

Solutio

Entre o céu e a terra, existiu um espaço (que se sabe onírico) de purificação. Lugar antigo, de morada, zelado por uma anciã que conduz. É uma dança sinuosa a chuva que cai ali, dissolvendo, comovendo. O pensamento tem a crença de que tudo ruirá, pela insistência da água dançante. Mas a natureza sabe da raiz do tempo, e da dor da solidez, já que tudo em um trecho do caminho, abraça seu contrário. Esperando a água que purifica o ser, existem dois frascos, um para os resíduos do corpo, e o outro para os resíduos da alma. Este último, diz a anciã, é para o veneno, que mortifica e chama a cura. Um dos frascos veste a cor vermelha.