31 de agosto de 2011

Sangro

Sangro muito a solidão. Qualquer sopro de vento ou palavra que não chega, me corta. O berço em que corre meu sangue é fio que conduz a outros rios. Em minhas veias abertas, corre a dor da flor que não se abriu. As feridas desenhadas em mim, são as mesmas daqueles que vieram antes, e que também não desabrocharam. Quando acordo, sinto a dor do mundo.

29 de agosto de 2011

27 de agosto de 2011

Passou


Não há alimento que entre pela boca.
Na morte, da ilusão dos sentidos
É que existe a eternidade

26 de agosto de 2011

Breve

Toda beleza e força do meu ser, vem da minha mais profunda escuridão.

Aquele pássaro

Era tão belo e raro aquele pássaro, vindo não se sabe de que norte, que segurou-o junto ao peito, bem próximo ao seu pulsar, desejando que ali ficasse para sempre. Entendeu que havia recebido uma graça [tantos véus adornam o ser, e como é belo o encantamento]. Houveram promessas de vôo, mas a medida de possuir só para sí aquele canto, era longa. É da natureza do desejo ser céu, horizonte. É da natureza do humano [que se perde na medida] não entender a natureza do vento. Tanto querer impediram o desabrochar das asas, não houve vôo. E sendo pedra, perdeu tamanhã graça, aquele que aprisionou.

sob a terra

sufoco, morro lentamente, sem ar, sem luz, e me desfaço junto a terra.
talvez reste algo de mim que germine, vire semente, fruto ou retorne ao nada.
e ainda um breve fio de consciência indaga se é vida, 
o que existe acima do túmulo.

25 de agosto de 2011

Ressurreição


ao impulso instintivo que se dizia morto, te apresento a palavra: ressurreição!
e eis que quem morre é tua vã consciencia, do nada.
a quem dirijo a palavra? 
o que há por trás do espectro do que dizes ser tú, em verdade?

24 de agosto de 2011

Acídia


Hoje, afirmo, que nem os bens do espírito seriam alimento à minha dor. Vivenciar uma realidade moral ligada ao chamado da alma, é uma fantasia de entretenimento. Ao lado não há pares. Cada qual busca adições ao ego, nada mais, de onde quer que elas venham, desde que venham em abundância. Não há deveres, não há expectativas, não há promessas, e isso é a verdade, de outra forma, estamos criando roteiros onde não podemos atuar. O caminho é individual, reafirmo, embora existam situações tão sedutoras que nos fazer crer que poderia ser diferente, mas não é. Essas palavras não são um lamento, são constatações do que se trata a realidade das meias-relações.  Alguém quer outro alguém, e todo o resto. Com algumas concessões que não ferem o rei. Neste momento do tempo, entendi que tudo é vento, e quanto mais sabedoria, mais silêncio. Primitivamente São Gregório propõe como um dos sete pecados capitais a acídia, ou tristeza, que é um sentimento ligado somente as questões interiores daqueles que vivem a ermo, e precede os outros vícios ou pecados. Somente uma alma triste precisa de adições, se move pelo impulso de prazer, e abre-se a interfaces múltiplas, que lhe trazem cor e afago momentâneo. É a doença do nosso tempo, crônica, e é verdadeiramente, a paixão (pathos) da alma. Sei que falta a poesia, mas ainda há espetáculo. Então, que venha a platéia, jogar flores mortas ao túmulo.

22 de agosto de 2011

Velha profecia de hoje

Ah sim, o progresso! a nova arte coletiva de vida: saiam de suas casas e habitem a periferia indolor do ser. Aqueles que não forem ou se derem ao retorno, santificai o movimento de não olhar onde os pés trilharam. Reconhecerás o caminho do teu lar, olhando para a frente e para o centro. Como a flor e a raiz, que possuem consciência diferente, e ainda assim, sabem da direção do grande girassol do mundo.

19 de agosto de 2011

Perséfone


Encantou-me a flor de narciso. Raptam-me ao mundo dos mortos, onde me ofereceram um fruto doce, que me fez cativa. Ora luz, ora sombra. Entre os deuses decidiram. Transito entre os dois mundos, mas sou senhora do oculto, onde também sei do amor. Não há muros que os separam, logo, não me encontro dividida. Sou mercurial. 

18 de agosto de 2011

No meio do caminho


                Havia uma festividade. No meio do caminho algumas almas dançantes encontraram a celebração da vida. Ali, foi servido um alimento amargo, que causava dor. Era para um novo paladar, coisa genuína. Desconhecidos, a seu próprio sabor, questionaram a semente, e a mão que a levou a terra. Lançaram os frutos ao vento. Não mais seguiram a dança. “A cura vem de alguma coisa sabida como veneno, e tem a medida exata da doença” -  disse aquele que celebrou, de fato.        

17 de agosto de 2011

Em breve curso de Sonhos

trans
      (formar) 
                   o sonho em poesia
ou melodia

mas-acima-de-tudo-deixar-que-ele-viva

É para o que não vejo que lanço meu olhar


[ São muitos os que vivem em mim. Sou a manifestação de toda humanidade. Também de seus perigos. Tudo manifesto. Ora constela a serenidade da certeza do eu, ora sou o palco de uma energia sem controle que vem das profundezas sem luz. É um grito, de uma imagem primordial da criação, caótica aos olhos da consciência. É assim algumas vezes, quando vou longe do meu centro, quando tomo outra forma, quando indiferenciada. É quando meu desejo despreza o mundo, se separa, ri, certo de que tudo, não passa de um sonho, ou de mais uma travessura de Eros ]

[ No caminho entre a morte e a vida, há um vale, experimento o receio antes da descida. Trago alguém comigo. Vamos ao lugar de grandes escadarias, pedra, noite, brumas. É incerto o alimento que nos nutre ali. Pelo caminho desconhecido do retorno, peço passagem. Me tiram as vestes, me paralisam, me roubam a palavra. São desdobramentos do meu medo, que me cercam por três lados. Fantasiados. No caminho entre a morte e a vida, ao lado do vale, ouço um sussurro: ‘nunca o medo havia passado por aqui antes’. Dentro de mim mora a flor da vida, que olha apenas em uma única direção ]

15 de agosto de 2011

Caminhos


voou longe aquele gesto
acenou em amparo
pedindo abrigo
ofereceu alguma coisa doce
palavras conhecidas
mas de fato 
o que fazia ia longe 
bem longe
do poema que soprou.
talvez fosse outra língua
ou era apenas o mesmo momento
no mesmo abrigo
até a tempestade passar
aquele encontro

Solidão


É só um cansaço por tanta adequação.
Até um dia em que se perde a forma.
E se torna qualquer outra coisa que não é você
(em nome de que?)

12 de agosto de 2011

As estrelas não são fixas (para Campbell)


Despeço-me do campo do tempo (tão longo aceno), deixo-o porque creio na eternidade da dimensão do hoje, e não em tempos futuros, quando jaz. Afirmo o mundo, não o nego, creio no impulso natural da vida e mais do que entendê-la, minha urgência tanta, é de me sentir viva. Minha vida, articulada a um poema contínuo. A canção do universo, sem dualidades, luz-sombra, homem-mulher, bem-mal, ser ou não ser. E nesse caminho, único, para além da dualidade, me descubro criação: Deus.

Brinde


É preciso sofrer sem ser visto. Na ante-sala apenas risos. Não me conte de suas dores, é lei: cada um dê conta das suas. Compartilhemos apenas, a alegria da alienação que sustenta o ego. Ao ser, o cárcere privado. Brindemos as máscaras!

6 de agosto de 2011

Breve

És palavra doce que não enjoa, 
porque entoa um canto que me encanta a poesia.

Labor

É no tempo da matéria finita que me demoro, artífice de mim  mesma, trabalho para transpor a grossa camada de cinzas e lodo que me compõe, esquecida e pequena semente a espera de vir à luz. Não é em vão esse hoje, nem as longas noites negras em que me demoro. 

5 de agosto de 2011

Contínuo

Infinitamente contínuo. Assim o descrevo. Nada mais posso acrescentar àquele de veste única. Pousa e repousa no mesmo gesto, impele, impõe. Está sentado em cima do muro, cobre a luz do sol. Faz sombra. Das coisas do infinito (assim entendo) não há morte. 

1 de agosto de 2011

nem palavra

Ainda falta intimidade com o silêncio. Conservo uma paixão escancarada com a palavra. Ali, jaz esse rei desconhecido que acena em mim, ao longe. Alguns anos ancorada no cais, cultivando o musgo verde da permanência, não ouço (nem em conchas) a sonoridade do mar, ondulado em vento.