28 de julho de 2011

Pouco

Não poderia discorrer sobre muito mais. Tudo anda pouco. Preciso de mais uma dose - de vida. Sobriedade é cansaço sem cor. Sem êxtase. Já devorei todas as palavras e gestos. É o que posso.Tudo anda pouco.  

26 de julho de 2011

Náufragos

me dê a magia de acreditar que és um náufrago em mim sem passado. que a poesia do cotidiano é merecidamente para o encanto que nunca vivestes assim, enquanto ilha.  me acorde a tempo de ver o sol, depois de esgotar-me em lua. me tenha nua, sem a memória dos teus poucos anos, além de nós. me entregues tua fragilidade, mas não me digas que é assim também teu amor. é preciso um verso forte para sobreviver em certas circunstâncias. aqui onde estamos, só nos resta a busca de tesouros escondidos nas sombras do que ainda paira em nós. os barcos a deriva não carregam horizontes além do que já temos. sejamos nativos dessa terra que pisamos ontem, quando acordamos juntos, após longa viagem em náuseas. 

21 de julho de 2011

20 de julho de 2011

Errância

Nem náufrago
Nem continente
És marinheiro
Natureza
Errante
Conjugas
O verbo
Amar
A cada
Porto

18 de julho de 2011

Sutil

Passou
Rápido
Foi
Devagar
O tempo

Decida(se...)

Sim, entendo. Os sentimentos não trilham os mesmos caminhos da razão, mas sou uma só, logo, creio que estes desconhecidos entre si, tenham alguma conexão. Ambos são legítimos, e não são vistos a distância, então, por favor meu amor, aproxime-se. Permita que eu negue a tua verdade em nome da minha, não sempre, algumas vezes apenas. Algo me diz que a aceitação parte de ambos. Aqui estou, a caminho do sentimento que não tinha, mas me destes a mão e hoje trilho contigo num caminho sutil. Acolhi teu sentimento, dentro do meu. Da razão (minha e tua) não sei por quais caminhos segue, e verdadeiramente minha lógica não compreende porque acreditas que sou eu que carrego tuas malas conosco. Já que são em tuas mãos que elas estão. Insistes em não largar, me negando. Ainda não é possível a compreensão de que duas coisas podem existir no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Pergunto: Existe lugar para sentar a mesa contigo? Vejo todas as cadeiras ocupadas. Sombras. Abro meus olhos e vejo. Ouço ecos. Sinto em tuas palavras, até mesmo naquelas que calas. Sou antiga, de um olhar que ainda não tens. Então não faço sentido para ti. Saiba que algumas combinações são perigosas, outras amargas. Seremos elementos compatíveis, no instante em que nos falta o ar? Olhei para ti num instante poético, único. Não vi a multidão que o cercava e que agora me fere. O melhor de nós dois existe por um ato do que as vezes entendemos por amor. Mas a existência do que é vida, para mim, depende de ações de cultivo, e ando secando, dia-a-dia, quando te sei, ontem. Decida o momento em que possa se despedir do ontem. Decida o momento em que possa deixar as malas. Decida quando. Decida (se). No instante seguinte, ouvirá o silêncio das mil vozes que calo em mim, enquanto você não está.

14 de julho de 2011

Devir

Existe uma canção que toca a alma
Enquanto o mundo ainda é criação
Espera florescer àqueles
No templo do silêncio
Que se embalam
Na dança do vento
Tem o coração em graça
E se põe em verso.

Tempo (és novo e és ontem)

Júbilo e graça às correntes do tempo. É assim a cada passo que é dado, olhando para trás. Ao que jaz. Alegria travada entre os dentes. Das leituras póstumas, de outros. Contendo a primavera, em meio a cinzas. Presente, do cultivo da palavra morna.

13 de julho de 2011

Na noite negra da alma

Tomou um cálice de veneno das mãos do curador.
Sentiu o perfume da rosa.
Lembrou que tinha espinhos.

12 de julho de 2011

(im) permanência

Não me tenha permanência, pois estou de passagem. Entrei por aquela porta que encontrava-se aberta e aquilo me pareceu adequado, pelo frio que fazia em mim. Deveria ter avisado, não soube dizer. Não é meu mundo. Não é meu chão. Não me sei num lugar onde tantos já foram. Não me sei assim, inteira, como deve.
-
Não sei quanto tempo é meu presente, nem meu futuro. E neste tempo incerto, não aprendi teus gestos de amor a mim. Impermanente. Não permaneço ali. Não me encante com a beleza, não sorria, não me cante poesia, tudo é sonho. Acordei há um tempo e vi que não pertenço. Então não tranque a porta, não me tenha permanência, sou viajante.
-
Não me tenha mal.

11 de julho de 2011

Graça

É aquilo que recebes quando o rei morre e se dissolve.

Num trecho do caminho

Era um trecho de calmaria, descanso, ausência, não sabia ao certo. Havia uma distância segura, que não era medida pelo tempo, entre a fonte e o medo. Alguns viam como solidão, tristeza, mas a medida de tantos, agora não fazia sentido, não tocava. Ali, naquele ponto, não pensava certezas, apenas seguia uma música que ouvia no peito, afago. Quando queria o avesso, faltava a poesia. Era a maior proximidade que já houvera, e também a fome. Não seriam respostas, toda aquela luz. Ainda não tinha olhos para ver, naquele trecho do caminho, acostumada as sombras.

8 de julho de 2011

Via una

Percebeu que aquilo que vestia, eram mordaças que lhe foram postas assim que adormeceu, e acordou naquele lugar. Era necessário para a descida. Foram longos anos de desconforto interno. Pertencia a tudo, menos a ela mesma. Aconteceu, em algum momento, que se perdeu na memória. Quando a pele gritou a dor, moveu um músculo e sentiu que era de dentro, o pulsar. Havia tamanha força naquilo que descobrira, que tudo além, desfalecia, gota-a-gota.  Largou as mãos, deu adeus e seguiu para o centro, despedaçando-se do que ainda eram vestes. Chorou saudade, gritou o medo e colheu o frio. Vasto querer, e longo despertar sem volta. Pensara nas longas vestes que deixou para trás, e que não lhe cabiam mais, pois tinham forma semelhante a todos. Também aquela forma de pensar, pertencia a outro tempo, então tratou de silenciar a mente. Agora não tinha espelhos, mas sabia-se, e era tudo.

5 de julho de 2011

anunciação


Que venham os homens desconhecidos rezarem suas preces em praça pública. Que tragam consigo mensagens dos céus e as boas novas para aqueles sem poder. Que se apresentem serenos mas também aos gritos para os tantos que não ouvem, porque é necessário o espanto aos que insistem no sono. Poucos são os que param a máquina do tempo e presenteiam a luz. Sou aquela que não vê o tempo, mas ouço as vozes do passado, quando era imperceptível sombra. Em algum ponto do caminho é frio e silêncio, então resguardo-me, mesmo quando alguém me acena um gesto, de longe.