27 de maio de 2011

noite

Era desses tipos excêntricos que são apenas nas noites. Apenas. Certa vez, depois da exaustão da existência soturna, resolveu entregar-se a ela, ainda enquanto. Após a ausência no dia,  chegou  em casa, espalhou suas coisas, como de costume, procurou em vão por comida saudável, abraçou seu cachorro, não abriu a correspondência, deletou mensagens telefônicas sem ouví-las, desprendeu-se do dia,  apagou memórias, deixou de sentir seu coração apertado, não viu a lágrima, nem sentiu seu gosto amargo, leu as poesias que lhe mandavam (todas), olhou-se no espelho, pensou num banho, aqueceu-se por dentro, sentiu a pele, pois era assim que gostava. Entregou-se ao leito enquanto a noite ainda cedo. Em sua cama havia um anjo antigo, que sonhava. Viu seu sonho. Permitiu-se. E nunca mais acordou.

25 de maio de 2011

Raridade

pessoa, coisa ou objeto raro, 
curiosidade, 
exaustão, 
excelência, 
rarefação, 
pouca frequência,
único.

23 de maio de 2011

Gita

Ouvi um chamado antigo, que batia a porta de quem veio antes de mim. Alguém vinha para a comunhão, mas em sonho. A pureza era necessária para a subida do abismo. E então as portas mantiveram-se trancadas. Até agora. Pois antes havia medo, não amor. Na contramão da periferia, o caminhar era lento, dolorido, amargo, feio. Era a vivência do aprisionamento do olhar viciado, pois também antigo, heranças que sangravam. A experiência que não compõe poesia exata, pois é das coisas dos que calam. Não fui livre para tal escolha – como dizem. Mas dei acolhimento, receosa. Sei das juras daquilo que clama, acredito. Ainda me despindo das vestes do que fui, me purifico, estou à porta, estendendo a mão, alma em chagas, em dor. Sou quem abre a porta. Sou o que chama. Em tempo, hei de me mostrar. 


Através

Queria ver a beleza de alguém que a mim chegasse  sem voz – mudo.
E que nesse silêncio pudéssemos falar (e calar) todo o nosso ser.
Vem da beleza do olhar, de quem observa e guarda o mundo em si – em cores.
É assim, porque palavras são murmúrios que mortificam.
Lembrança antiga essa: Não falar, somente o ser, por longo tempo.
É quando se ama.

Medida

Dessas tais urgências da carne,
que não mais sustentam minha alma.
Ainda escrevo, pois é preciso.
Mas não sei dizer – então me calo.

Leve e Breve

Vem, e deixa apenas seu cheiro.
O resto leva embora.
Breve.
É apenas uma lembrança.
Não chega a existir.

21 de maio de 2011

Bricoler

Como é possível costurar um momento ao outro?
O ontem, mais do que o hoje, me parece tudo. 

20 de maio de 2011

Ausência

Em segredo, iniciei várias vezes o diálogo, sem resposta. Daqueles sentimentos felizes e tristes que só se pode compartilhar a quem pode ouvir. Me arrasto em monólogos desfeitos, não posso mais com palavras do que sou. É infinita a distância que me separa do comum que me cerca. Pessoas cheias e vazias de si mesmo. Morro, quase todas as vezes que me desfaço naquilo que não sou. Ainda assim, vejo poesias nos dias, embora seja noite. Não compartilho meu abismo noturno, ninguém está lá, embora ao meu redor sinta presença (muda). Já tive tantas despedidas, mas sempre volto ao meu encontro, embora às vezes não me reconheça. Talvez não devesse mais partir, ou não mais voltar. Ando descuidada do que me é alheio – reconheço. Lamentos, murmúrios, ilusões, raso. Sou em outro tempo, de poucos, e ando lentamente, antiga. O longo abraço que me enlaça é triste, pois não me alcança. Quero me sentar com um anjo amigo, todos os dias, e pedir ausência, de tudo que me cansa, mas sei, que essa não é minha vontade primeira. Alguém, que na morte entenda minha poesia, saberá meu eu e estará comigo, como um infinito poema. Mas já é tarde para o encontro, pois a escuridão é imensa.

17 de maio de 2011

Ser

Tudo vinha antes.
O depois eram os cacarecos da mente que estava na periferia.
Antes e depois são desconhecidos do ser.
O medo também.
Traz sabedoria o que vem do mítico - e dor.

16 de maio de 2011

Breve

Houvesse um lugar para além desse labirinto de delírios que percorro, 
estaria ausente quando. 
E sendo, então, me saberia inteira.