19 de janeiro de 2011

Desprendimento

Isso de mim, que anseia desprendimento,
Penitente e tortuoso,
(Por que haveria de desejar o abraço eterno ao que não é meu?)
Ainda agarra-se ao que já é morto.
Fosso de um laço invisível e efêmero, do qual o que sou me diz: nunca mais!
Não sei ainda por qual horizonte me guiar,
Tampouco, a quem deixar aquilo de que me desprendo.
Esqueço o nome das coisas que me cercam, me excedem,
Na certeza que não mais valorar o que desconheço.
Desprender-me torna leve, e também solitário,
O caminho no qual ninguém está comigo.
Olho para trás porque ainda não sepultei meus mortos,
Ainda não dei adeus, não chorei todas as lágrimas, não purguei a noite.
Ainda meu corpo em chagas, clama por aquilo que entende por parte.
Ainda sou ontem,
Querendo apressar o tempo da dor que sinto, por deixar-me como me entendo hoje.
Ainda sou um querer antigo.
Então, isso de mim que anseia por desprendimento,
Ainda me vê pequena.
Ao certo ainda não sei seguir - sem deixar o que não sou.
Meu anseio tímido, é por saber-me apenas,
Sem rosto, corpo, nome e bagagem.

4 comentários:

Ricardo Steil disse...

"Olho para trás porque ainda não sepultei meus mortos", de todas esta sentença é que mais gostei.

Fernando Cid disse...

As reflexões da existência no casulo deixam leve alma da futura borboleta.
Fernando

"A grande borboleta
leve numa asa a lua
E o sol na outra
A grande borboleta
seja completamente solta"
Caetano veloso

Daniela Mara disse...

Nossa um tanto quanto profundo, poderia dizer essa sou eu!

Eduardo Lamas disse...

Ah, esses fantasmas que volta e meia nos assombram. Melhor ficar na memória com Belchior à voz de Elis: "... o passado é uma roupa, que não nos serve mais..."
Beijos.