5 de janeiro de 2011

29 teses sobre a noite

1° tese:
Os olhos que vêem a noite não são os olhos que vêem o dia.

2° tese:
A luz do dia esconde a forma da noite.

3° tese:
Da janela vejo outra janela,
Outra alma,
Outra pessoa que sonha,
Assim como eu,
Acordada.

4° tese:
A leitura me entorpece,
Calmante ingerido, quando todos dormem.

5° tese:
De dia não leio,
Há barulho.
Leio à noite,
No silêncio - dos que dormem.

6° tese:
A noite converso com eus desconhecidos.
Vejo,
Toco,
Sinto.

7° tese:
Acordo todas as noites para a vida.
De dia durmo.
Sou do avesso.

8° tese:
Me vejo nua na escuridão da noite, gosto assim – pele.

9° tese:
Tem uma luz que me vigia, me cuida, quando tudo se apaga.

10° tese:
O dia é longo,
E a noite é curta,
Pra tudo que quero em mim.

11° tese:
A noite vago por dentro de mim mesma,
Me investigo,
Me sinto,
Caminho longo.
Preciso de todas as noites assim – pra mim.

12° tese:
Aqueles das palavras, vem ter comigo às noites:
Joyce, Leminski, Machado, e outros que nem sei o nome.
Gritam em mim querendo falar.
Sou uma só.

13° tese:
Sei da noite mais que os outros.
Me alimento dela.
Sou eu mesma na madrugada - o meu alimento.

14° tese:
Rascunho dores, medos, desejos, alegrias, lágrimas, saudades, e até Deus.
Depois rasgo tudo e jogo fora.
A-manhã não me serve mais.

15° tese:
Bicho noturno.
Arredio.
Fugidio.
Sou eu em instinto – me reconheço.

16° tese:
Apresso o relógio. Corto as horas. Mutilo manhãs e tardes.
Apenas as noites.

17° tese:
Me dou durante as noites.
Durante o dia me empresto.

18° tese:
Abro os olhos para ver o dia.
A noite posso fechá-los.

19° tese:
A coragem e o desejo dormem de dia,
Cansaço.
Despertam à noite.
Com a noite - pela noite afora.

20° tese:
A noite.
Me reconheço
Bicho nú.

21° tese:
Falo em sonhos,
Com todos que me tem.
E em todos em que estou.

22° tese:
Se algum fantasma chegar de surpresa,
Será surpreendido pelos meus fantasmas.

23° tese:
Faço convite para que entrem comigo na noite,
Muitos ficam à porta.
Poucos atravessam,
Labirinto meu.

24° tese:
Não vem de fora o que habita em mim,
Vem da noite.
Noite de mim mesma.

25° tese:
Muitos me trazem velas,
Candeeiros,
Lamparinas,
Assopro o que não é de mim então.

26° tese:
De dia sou razão.
Razão pra que?

27° tese:
Pássaro noturno que não tem asas durante dia claro.

28° tese:
O Zelador noturno anuncia, com seu apito,
De hora em hora,
Que é zeloso pelos perigos do dia.

29° tese:
Foi o que foi – o dia!
É o que é – a noite!

2 comentários:

Ricardo Steil disse...

Entre nós. Como Lúcio Cardoso chamava Clarice Lispector, eu te chamo: "my pen lover".

William Garibaldi disse...

Que maravilha, gostei de todos!
Sua poesia é sublime! Estou surpreso e feliz!