25 de janeiro de 2011

19 de janeiro de 2011

Desprendimento

Isso de mim, que anseia desprendimento,
Penitente e tortuoso,
(Por que haveria de desejar o abraço eterno ao que não é meu?)
Ainda agarra-se ao que já é morto.
Fosso de um laço invisível e efêmero, do qual o que sou me diz: nunca mais!
Não sei ainda por qual horizonte me guiar,
Tampouco, a quem deixar aquilo de que me desprendo.
Esqueço o nome das coisas que me cercam, me excedem,
Na certeza que não mais valorar o que desconheço.
Desprender-me torna leve, e também solitário,
O caminho no qual ninguém está comigo.
Olho para trás porque ainda não sepultei meus mortos,
Ainda não dei adeus, não chorei todas as lágrimas, não purguei a noite.
Ainda meu corpo em chagas, clama por aquilo que entende por parte.
Ainda sou ontem,
Querendo apressar o tempo da dor que sinto, por deixar-me como me entendo hoje.
Ainda sou um querer antigo.
Então, isso de mim que anseia por desprendimento,
Ainda me vê pequena.
Ao certo ainda não sei seguir - sem deixar o que não sou.
Meu anseio tímido, é por saber-me apenas,
Sem rosto, corpo, nome e bagagem.

Lua Nua

E a lua nos mostra sua face iluminada,
e traz consigo, promessas de etecéteras...

18 de janeiro de 2011

Crença

Já não me cabe mais,
Essa tal realidade, verdade, metade, enquanto parte.
Só posso acreditar numa verdade que venha dos sonhos,
Onde as meias verdades, metades e partes,
Coincidem, se encontram e se tocam.
Onde nada – sendo todo,
É eternidade.

17 de janeiro de 2011

Breve olhar de ontem

Olhar a alma com calma...
O olhar vê apenas o que vê.
Não sei sentir com os olhos,
Mas a alma - tantas,
Vê e sente aquilo que é - até.
E segue prevendo,
Aquilo que os olhos - estranhos à própria imagem,
Não conseguem reter, absorvidos em longos fios de pensamentos.
Breve olhar dos olhos, à margem do que se é, em sí.
Alheios, daquilo que na alma, já é eterno.

14 de janeiro de 2011

Outrora era eu

As palavras são o fio condutor do descobrimento.
Quem hoje, mais sabe de mim, nunca me viu, me tocou,
Nem mesmo ouviu minha voz ao longe.
Me descubro em palavras de um século distante,
Em versos recitados numa língua estranha à minha.
Em personagens, velhos, loucos, crianças, deuses que falam da minha vida,
Que falam do meu eu, do qual pouco sei, antes de lê-los.
Inexistente seria, se não fossem as palavras dos que já não estão aqui.
Tenho idade avançada, pois já existia, mesmo antes de existir.
Minha missão é: descobrir pela alquimia das palavras,
O que sou – ontem,
Pois o agora e o amanhã, também passado – já estão escritos.

Conduza-me

12 de janeiro de 2011

(in) Probabilidades

Algumas pessoas unem todas as coisas,
Mas são improváveis.
Improváveis à meia luz da consciência.
Porque não existem pessoas ou coisas improváveis.
O que existe, são limitações daquilo que se vê,
Enquanto metade.

11 de janeiro de 2011

Valor

Gostaria de não saber do gosto - amargo,
Nem do rosto – lastimoso,
Da morte, que vivo diariamente,
De tudo que em mim, já não tem mais valor,
Nem tampouco sabor.

9 de janeiro de 2011

Paradeiro

                                        Qual o paradeiro do amor,
                                                                        que se evita,
                                        Tentando evitar a dor?

Quando silencio

Minhas melhores poesias estão nas palavras não ditas.
Sabidas apenas pelos cúmplices,
Que comigo silenciam.

5 de janeiro de 2011

29 teses sobre a noite

1° tese:
Os olhos que vêem a noite não são os olhos que vêem o dia.

2° tese:
A luz do dia esconde a forma da noite.

3° tese:
Da janela vejo outra janela,
Outra alma,
Outra pessoa que sonha,
Assim como eu,
Acordada.

4° tese:
A leitura me entorpece,
Calmante ingerido, quando todos dormem.

5° tese:
De dia não leio,
Há barulho.
Leio à noite,
No silêncio - dos que dormem.

6° tese:
A noite converso com eus desconhecidos.
Vejo,
Toco,
Sinto.

7° tese:
Acordo todas as noites para a vida.
De dia durmo.
Sou do avesso.

8° tese:
Me vejo nua na escuridão da noite, gosto assim – pele.

9° tese:
Tem uma luz que me vigia, me cuida, quando tudo se apaga.

10° tese:
O dia é longo,
E a noite é curta,
Pra tudo que quero em mim.

11° tese:
A noite vago por dentro de mim mesma,
Me investigo,
Me sinto,
Caminho longo.
Preciso de todas as noites assim – pra mim.

12° tese:
Aqueles das palavras, vem ter comigo às noites:
Joyce, Leminski, Machado, e outros que nem sei o nome.
Gritam em mim querendo falar.
Sou uma só.

13° tese:
Sei da noite mais que os outros.
Me alimento dela.
Sou eu mesma na madrugada - o meu alimento.

14° tese:
Rascunho dores, medos, desejos, alegrias, lágrimas, saudades, e até Deus.
Depois rasgo tudo e jogo fora.
A-manhã não me serve mais.

15° tese:
Bicho noturno.
Arredio.
Fugidio.
Sou eu em instinto – me reconheço.

16° tese:
Apresso o relógio. Corto as horas. Mutilo manhãs e tardes.
Apenas as noites.

17° tese:
Me dou durante as noites.
Durante o dia me empresto.

18° tese:
Abro os olhos para ver o dia.
A noite posso fechá-los.

19° tese:
A coragem e o desejo dormem de dia,
Cansaço.
Despertam à noite.
Com a noite - pela noite afora.

20° tese:
A noite.
Me reconheço
Bicho nú.

21° tese:
Falo em sonhos,
Com todos que me tem.
E em todos em que estou.

22° tese:
Se algum fantasma chegar de surpresa,
Será surpreendido pelos meus fantasmas.

23° tese:
Faço convite para que entrem comigo na noite,
Muitos ficam à porta.
Poucos atravessam,
Labirinto meu.

24° tese:
Não vem de fora o que habita em mim,
Vem da noite.
Noite de mim mesma.

25° tese:
Muitos me trazem velas,
Candeeiros,
Lamparinas,
Assopro o que não é de mim então.

26° tese:
De dia sou razão.
Razão pra que?

27° tese:
Pássaro noturno que não tem asas durante dia claro.

28° tese:
O Zelador noturno anuncia, com seu apito,
De hora em hora,
Que é zeloso pelos perigos do dia.

29° tese:
Foi o que foi – o dia!
É o que é – a noite!

Palavra

Meu corpo-palavra,
Tem desejo por versos fálicos,
Palavras em versos,
Versos em desejos.
A palavra tomando (o) corpo.