29 de dezembro de 2011

28 de dezembro de 2011

Não posso te fazer promessas outras
Nem mesmo posso acreditar que darias conta das tuas
Simplesmente porque é demasiado o sonho.
Não sou mais o riso que esconde a face da tristeza.
Um homem passou de trem e pela janela
Viu toda minha fraqueza.
Escancarada e comovida - me disse.
Num vasto mundo que corre.
Não foi um preço alto que pagou aquele homem.
Era exato o que havia no bolso.
Era todo o valor de sua dor.
E você que acredita no tempo e me pede para esquecer o passado
Esse pássaro alado que sobrevoa a paz e repousa rígido
(porque pertence as coisas imutáveis) em meio a nós.
Um relógio repousa em teu pulso, aquele mesmo que pulsa teu sangue
Sangue que corre as veias, que corre o corpo
Corpo que corre o mundo, escorre em nós
Tampouco somos em círculo – nem um, nem dois
Somos lineares e corremos, assim como o tempo (aquele no qual acreditas)
Em direções opostas.

22 de dezembro de 2011

seja

E eu que já nem sei se o meu amor caberia dentro de uma forma tão fixada em outros eus. Nascem espinhos no meu coração, que é para que não me tires daqueles momentos de solidão tão necessários a minha loucura. Não procuras minhas noites. Meus perigos passam despercebidos a ti, por isso dormes em oração a minha claridade, pois só assim me vês. Anoiteço cada dia mais. Sou abissal, e procuro, unicamente o absoluto. Que o hoje se realize.

9 de dezembro de 2011

                                       
                            

[   o óbvio é coletivo   ]

céu


As minhas nuvens
carrego comigo
O vento sopra
E leva embora
Cria
forma

7 de dezembro de 2011

O que tinha a oferecer era a busca
E de repente estava só
Porque todos já haviam encontrado
o que não buscavam.

6 de dezembro de 2011

Algumas coisas

Algumas coisas valem muito a pena pela beleza que revelam. Para as coisas passageiras existe a memória vaga, que vaga tempo afora e leva embora o que está de passagem. Nem falo de equilíbrio, razão, métrica, forma, jeito. Falo de sentido: símbolo. Aquilo que une. Algumas coisas ainda passam em branco, se transformam em cinzas. Algumas coisas ainda tenho querer, mas são poucas. Algumas coisas ainda doem, mas sempre existe o riso. Existem ainda as ilusões, que fazer doer o coração, mas somente até os olhos se abrirem.

4 de dezembro de 2011

A nova alquimia

Entrei nos porões da mente a procura de uma nova alquimia. Desconhecia a cor do cálice do meu coração. Aos primeiros passos fui veneno, punhal apontado no peito de outro, sem honra ou qualquer tipo de luz. Houve um abismo entre o velho e o novo. Nesse tempo, meu coração precisou doer para que pudesse ouví-lo em sua canção de amor. Não estou só.

29 de novembro de 2011

Solto

o que importa real(mente)
vai além de uma perspectiva mera(mente) humana
melhor vazio e dúvida. assim é possível semear....

a quem a chuva pede

Nunca se encontraram de fato. Mês que vem, é tempo de nascimento. Jamais pensaram que seriam frutos. Coração vazio, meio cansado, até de ser vermelho. Ela pegou a lanterna nas mãos e mostrou-lhe algum caminho. Ele cantou-a em versos. Havia qualquer coisa de suave e tempestade ao toque. Distraiam-se um ao outro vez em quando. Ele perdeu os versos. Ela guardou a luz. Apagaram-se os dois. Ouve silêncio, e alguma angústia na escuridão de ambos. Era uma vez duas pessoas que nunca se encontraram de fato. Lembrei de você nesse início, meio e fim, do desencontro.

23 de novembro de 2011

Princípios

[ Não creio ]
No medo
Na culpa
Na expectativa.

Acerca de Eros e Pathos

Alguma tristeza ou certeza da incompletude ou da incapacidade de ser além, gera a necessidade do outro que me enlaça numa teia de ilusões no espaço/tempo. Obviamente, somos todos permissivos nesse aspecto e diria até, esperançosos quanto a algo que poderia acontecer para além destas previsibilidades comportamentais humanas. Digo comportamento, porque assim entendo todas as limitações da alma manifestadas em ações inconscientes. O amor por exemplo. Grande canção dos poetas. Em alguns momentos penso que se presta apenas a isso. Até esse trecho da vida, ainda não pude observar tamanha expressão tal qual descrita nos versos, tampouco nos que os proferem. Quão distante me parecem o desejo e a ação.Quanta grandiosidade nas palavras, quanta pequenez nas ações. Não creio descrever em pessimismo, ao contrário, aprecio aquilo que não vejo e na mística da vida, logo, apreciaria a visão de algo próximo e realizável a esse respeito. Algum aspecto das coisas do indizível em mim, espelha esse outro que me atrai. Do contrário, nada seria. Mesmo em esforço, não alcanço a visão de continuidade ou diálogo longo entre alguns contrários. Algumas pessoas alçam vôos em tempos diferentes – verdade. Completude. A isso devemos todo romantismo na atualidade. Poderia ser diferente, caso tivesse fé contrária. É que me parece primário juntar letrinhas, sussurros, repetições, esperança e inconsciência e dar a isso o nome de amor. Na minha loucura, amor não se finda, é único, raro. Raro. Sentimento que não se encontra em demasia. Se já teve a certeza de experimentá-lo para além da soma dos seus dedos, conto-de-fadas, lenda, romance. Pathos. Confesso que seria surpresa, alguém que chegasse a mim, proferindo romances, no exato momento em que o ego estivesse sob os holofotes. De fato, poucas coisas atraem meu olhar ultimamente. Ando vendo filme antigo. Amor, me parece vazio existencial coletivo pedindo suicídio. Ando desinteressada pelas obviedades. De resto, ainda acho alguma graça.  Até a próxima página.
“ainda assim, quero aquilo que não vejo”.

18 de novembro de 2011

jogaram a sujeira embaixo do tapete
as visitas não são minuciosas
há um sorriso estampado no rosto
(de todos)

17 de novembro de 2011

"quero descobrir novos lugares 
- dentro e fora de mim -  
mesmo que isso me custe algumas despedidas"

14 de novembro de 2011

último ato

poderia ter sido o amor. mas não foi. a alma preferia o palco. o aplauso. a descontinuidade. só poderiam haver coadjuvantes. ainda aqueles que se calam e decoram a fala do autor. poderiam tantas coisas  e por vezes o autor abraçou outra alma com tamanha intensidade que por alguns segundos viram-se eternos. tinham roteiro próprio. luz. nem palavras as vezes, o sonho já lhes bastavam. num lapso de tempo, o autor voltou ao novo, precisava disso. largou o abraço, certo de que poderia voltar, fazer caminho reverso, após trilhar outros risos e sentidos. poderia ter sido amor. mas não foi. não foi, porque uma das almas precisava de cuidado. e ele não se sabia cuidador. apenas palco. aplausos. por alguns segundos também sofreu a perda. mas o palco sempre estaria lá. sempre haveria aplausos de todos os lados. acostumando a cegueira da descontinuidade. daquilo que poderia. aquilo que poderia se não fosse algo diferente do que poetizava. foi uma boa estação. recolher as folhas secas, regar a terra. deixar que o tempo despedace aquela tentativa, aquela planta que não vingou. porque era tímida, precisava de cuidado. e não de palco. poderia ter sido amor, caso este não fizesse parte de uma cena encenada tantas vezes antes. poderia ter sido amor, mas o autor, não sabe cuidar, daquilo que é semente, e que não cresce no palco.

13 de novembro de 2011

Sedução

melhor uma loucura aparente do que é ver absurdos ocultos e calar-se.
melhor a chama da loucura do que o vazio (imenso)
da sedução (da qual nem se sabe)
como alimento eterno.
Acontece isso quando não se sabe por inteiro.
É o comum que desprezo.
Preciso das surpresas de quem se sabe, apenas.

10 de novembro de 2011

bastariam algumas coisas apenas
para que te levasse comigo.
para o meu amor
bastam apenas alguns gestos – nem palavras
alguns pássaros migram a noite
percorrem o infinito.
algumas palavras voam longe
me ferem
e me levam (igual aquilo que não podes ver)
distante de ti

4 de novembro de 2011

Sob o manto da noite

Sob o manto da noite
Escura e fria
Alguma poesia
Irradia em mim
Ainda em desamor
O que é áspero por dentro.
Sob o manto da noite
Caminhas em mim
Desfaz-se o tempo
E sem movimento
Me precedes o amor.
E mais adiante
Ainda há tempo
De alvoradas
Em direções menores
Do que se eleva
Em nós, ali
Sob o manto das noites.

3 de novembro de 2011

Atualidade sobre o tema tristeza

É, ando triste, de fato...contemplando o que não vejo. Andei sozinha pelo deserto durante muito tempo e desacostumei o diálogo. Ainda tudo parece imenso ao meu redor, e distante. No auge da minha dor e solidão, me deparei com algumas miragens. Acostumei a achar que tudo são espinhos e por isso tenho em mim um punhal. Poucos segundos apenas me permito desarmar, é quando a chuva cai, e lava a grossa camada de poeira que fixa no meu corpo e me petrifica. Alguns poemas ainda florescem, embora falem sempre, dessa dor de andar sozinha pelo árido deserto da incompreensão. 
                                     “como dizer sobre o que não faz parte da minha tristeza?”

26 de outubro de 2011

Harpista

Aquelas fogueiras circulares chamando à dança as errantes almas noturnas para ecoar memórias esquecidas daquilo que sonha o mundo todo. É uma voz que me remete até lá. Posso sentir a dança, o movimento, o som da poesia da terra que se refaz aos pés de quem dança. O vento entoa um canto-melodia da escuridão. Levei a sombra profana que reconheceu-se sagrada então. Era apenas um véu. Sem distância. Ou fortaleza.

24 de outubro de 2011

outubros

então os ciclos existem.
cada um com sua medida.
curtos, longos, tardios, azuis.
são costuras da natureza.
então é preciso sensibilidade
para entender o que voa.
e é preciso fazer o caminho de volta
e saber-se.

19 de outubro de 2011

Se isso te consola, 
te digo que desconfio das intenções do vermelho. 
Desbotável.Tingido. Fingido até. 
Exposto ao sol, nem bem a lua. 
É pura razão dos olhos. 
Atente-se!

16 de outubro de 2011

Que eu seja aquele galho
Que da arvore despencou em desespero
Áspero e seco
E que pelo vento
Correu em direção à vida
Dançou pelos ares
E lá pelas tantas
Encontrou a imensidão
Do mar
E banhou-se!

13 de outubro de 2011

O peixe tem memória curta
mas pergunto-me se é capaz de sonhar
Assim, nesse curto espaço
que é o tempo que vive dentro
Desse aquário noturno

Entre certezas e desejos

É o caso que ainda não provei da coragem em seguir pelo único caminho onde percebo luz. Me entrelacei de um tal jeito em caminhos lúdicos que tudo agora esvazia-me a razão. Sabia-me até então. Acontece, para sobrepujar as ilusões do mundo. Hoje dei um passo importante, mesmo não acreditando no tempo. 

Por agora

É uma questão de ordem prática. O quanto posso suportar algumas coisas. É uma questão de respeito aos meus limites. Convicções. As coisas mais belas da vida pertencem ao campo do universo individual. Logo, não compartilho de muitas belezas que vêem os olhos alheios. Ao contrário. Algumas coisas me causam repúdio. É uma questão de ordem prática. A fluidez da vida me encanta. Cada dia mais algumas pessoas me mostram coisas belas. Mas algumas delas são enraizadas em grandes erros, que se sobrepõe a qualquer tentativa de ver beleza em seus frutos. Devo seguir outros caminhos. O encantamento é bom. Mas prefiro as questões de ordem prática. Não compactuo com visões alheias. Tenho minhas certezas  e meus sonhos, e isso tudo, me leva a outros caminhos. Também há beleza em outras estações, mais leves do que aquilo que me pedem para carregar sorrindo. Em nome de algo que nem sei ao certo se existe. Demasiada inocência cega é essa de naturalizar a vida, pois para mim, a vida não se fundamenta em compensações e culpa. Semearei meus campos e colherei eu mesma meus frutos. Nada pode substituir a leveza da alma. Em silêncio me distancio e dou adeus. Não posso com o peso alheio, não vejo beleza e é disso que mais necessita hoje minha alma. De ordem prática também é o discurso poético, que entrega a quem devo uma palavra, o meu mais puro sentimento. Assim como meus limites. Esgoto-me. Por agora.

12 de outubro de 2011

Lento é o tempo esse de subtrair a dor
Mas a imagem é bonita
Essa de ir caindo de você as quinquilharias frias
Pelo fio de herança

10 de outubro de 2011

acordada e 
levemente
sonhando

do azul das veias vermelho é o sangue que esvaiu-se de mim branca sem sopro de vida para suspirar pelo azul do céu acima do sol amarelo feito ouro de tolo em busca da vida fora do corpo  morto podre até a alma dilacerada pela dor da perda de um pedaço de vida pela ingestão de veneno que entra não pelas veias aquelas das quais escorre o sangue azul que nem é nobre mas pelas nuvens de pensamento não brancos mas negros como as cinzas que restam de um templo queimado e deixado ao tempo vento que sopra para além da vida que se esvai de mim como água corrente correndo fugindo de mim porque ando de mãos dadas e suadas águas  turvas com um coletivo de o que um dia chamou-se humano.

podem chamar do que quiser 
eu chamo de [ loucura ]
 aquilo que não 
sinto

8 de outubro de 2011

mais

A verdade é que você é um criança que não cresceu e precisa viver cercado de outras crianças que confirmem sua existência. Eu sou demasiada grande e não me encontro numa forma que caiba na sua existência. Por isso o lapso. 

meu amor inteiro

Para provar meu amor é preciso gostar das cores básicas da infância. Erro meu. Achar que amar era coisa de gente grande. Achei que o amor se bastava. Surpresa, ví que não estava só. Paralisei, pois aquilo tudo não caberia em mim. Veio com muito, e era pesado seu julgo ao meu espanto. Claro, o amor era meu. Cada um tem o amor que lhe cabe. O meu transborda, e ainda assim, é apenas meu. Alguém me olha também com espanto e me diz regras. Mede o tamanho do meu amor. È assim com o amor de cada um. Uma verdade inteira. Em respeito a ele, ao meu amor, nunca deixarei de amá-lo. Meu amor é muita coisa, não cabe em métrica, não vai ao vento, não se espalha. Meu amor é diferente daquele da métrica. Nem maior, nem pior. Em mim é sua morada.  Meu amor gosta das cores da infância,  e por ser amor real, não me pede provas.  

Tudo é uma inversão de valores. Cada um faz a sua própria conversão. Sem regras. Limites. Crime ou santidade. Nessa inversão todos os loucos apedrejados no dia anterior viram santos. Todos tem seu valor agora. Dito isso, converte-se ao breu da alma de quem vê parcial. Lógica ficou do lado de fora, não foi convidada. Assim como a realidade. Colhi maças na árvore. Foi-se o outono. Cada estação tem sua cor. É preciso entender. Porque algumas coisas, não podem ser convertidas. Liberdade é isso: deixar com que cada um perca-se na sua própria cegueira. Alguém estará ao lado, num gesto doce de compaixão e  sorrindo. Permita-se errar, e faça a conversão. Não há problemas. Para quem gosta do perdão, errar muito é ter a certeza de. Aos julgadores o desprezo, e toda razão tola. Alguém ligará no dia seguinte, e achará algumas sobras - engraçadinhas.

7 de outubro de 2011

o trabalho maior da alma não é o de aprender o mundo.
é o de esvaziar-se do mundo.

5 de outubro de 2011

Talvez eu mesma seja a manifestação de uma metáfora. De alguém que sonha. Mas independente de que matéria é minha composição, existo, de fato. É minha escolha dispensar explicações da ciência, do bem e do mal. Prefiro a liberdade do mistério, pois faço mais poesia sobre o que não sei. Posso colorir o mundo da cor que mais gosto. Posso usar mais exclamações e nem tantos pontos finais. Provei diversas vezes a realidade, toquei um mundo que é invisível aos olhos. Volto as vezes quando posso, ou consigo. Algumas graças me foram dadas. Queria muito. Ainda quero. Algum sinal de riso desponta em mim, timidamente, pois ainda estou em margem oposta (em raiz). Mas não desejo a existência além dos sonhos, isso me basta. É minha vida, vibro, absorvo e germino assim. Talvez caminhe mais e consiga chegar a outra margem, ou possa abrir as asas e voar além dela. Talvez.

3 de outubro de 2011

2 de outubro de 2011

Quando eu era criança fazia coisas de criança. Cresci, e presa a alegria do encantamento da fantasia, ainda faço coisas de criança.

[ Meu verbo querendo conjugar outros tempos ]

Mesmo sabendo que estava morrendo
Deu um passo a frente – pesado
Achando que a morte era infelicidade
Fugaz
Mesmo sabendo – pois foi dito
Que não havia caminho a dois
Foi atrás – dessa tal felicidade
a flor com espinhos
Não choro saudades
amores ou dores
A lágrima parou no meu olho
e não quer cair.

30 de setembro de 2011

Expectativa

A expectativa tem passos largos e vai sempre a frente. Mantém distância da realidade e por ter um ritmo diferente do real, tem sempre uma visão distorcida das coisas. A expectativa enquanto experiência do por vir, é um exercício de imaginação e por estar ligada a mente é capaz de provocar diversos tipos de sensações, das mais prazerosas, as mais doentias. A expectativa, embora duvidem, não está, de maneira alguma ligada a outros. Do contrário, pertence ao campo do individual. O outro até pode participar da construção da minha expectativa, mas somente pelo meu consentimento, porque sonhar a dois é um exercício duplo imaginativo, e portanto, duplicam-se as possibilidades de prazer. O tempo de vida da expectativa está, ao meu ver, diretamente relacionado ao nível de consciência que se tem. É uma medida simples: quanto maior a consciência, menor a expectativa (com relação a outros). O que está fora, no caso, o outro, nada pode me acrescentar e nada pode subtrair. A falta de consciência desse fato gera, então, a expectativa. É quando acredito que o outro pode me acrescentar alguma coisa, pode me fazer feliz, me elevar, e alguns muitos acreditam até, que o outro pode me ‘completar’, numa visão distorcida de que somos apenas ‘parte’, nos encontramos num caminho escuro. Não faço apologia ao ostracismo, de forma alguma. Sei da importância do coletivo e sei que somente nos tornamos quem somos, quando estamos em relação a outros. Porém, quando falo da expectativa, falo de algo ligado ao imaginário alienado da realidade, porque ninguém, de fato é responsável pela minha vida e muito menos pelas minhas expectativas. Se isso fosse uma verdade, viveríamos num emaranhado de expectativas que nunca se completariam, porque ninguém consegue, a menos que se anule totalmente (e isso não é possível para sempre) corresponder a expectativa de todas as pessoas com as quais se relaciona. Quando eliminamos as expectativas, damos chance para sermos surpreendidos pela vida, para o inusitado, e ainda mais, damos chance para que tanto nós, quanto as pessoas a nossa volta, sejam verdadeiramente quem são.  Sonhar é importante. Saber-se inteiro. Felicidade, é ter expectativas sim, mas para nos sabermos inteiros e únicos responsáveis pela vida que esperamos ser!

29 de setembro de 2011

Soa longe a voz do mundo. Não mais sou capaz de tocá-lo, embora ainda o sinta em dor profunda. Alguns olhares me fazem voltar no dia seguinte, tem alguma coisa de luz, que ainda encanta meu ser. Mas verdadeiramente não mais me sei aqui. 

28 de setembro de 2011

O que encantou foi a melodia do sonho. Nem palavra, nem imagem. O sonho. Aqueles, que viviam nele toda manhã. Era a continuidade do universo do mito. Eros. 

27 de setembro de 2011

É uma crucificação. Estendida sobre a cruz, braços abertos, pensamentos que sangram. Corpo em chagas. A cruz de hoje ainda tem quatro pontos. Liga, pela forma, todos os opostos. O coração está no centro também sangrando, mas ainda batendo. Presa a terra estão às ilusões do mundo, bonitas até, e passageiras. Cada pedaço do corpo sente a dor desse mundo. A dor, em seu extremo mostra uma luz, mas pelos olhos escorrem também sangue que ofuscam a visão. Momento solitário, porque na cruz, apenas se estende uma vida. São longas as noites da crucificação. Enquanto o corpo gela pelo vento que sopra, ouve-se o silêncio estendido pelo tempo. Nem gritos, nem gemidos. O desfalecer após um tempo, é lento e cuidadoso, reflexivo e dormente. Algumas crônicas aceitam a razão de que após o último raio de noite, é possível o despertar. 

26 de setembro de 2011

É o que vejo do lado de fora: barulho, cinzas, gritos, nuvens, sofrimento, dor, sangue, mágoa, lógica, ciência. Há muito tempo saímos do paraíso – voluntariamente. Houve um convite para saltar em direção aos extremos, viver os opostos, aceitar a espada que nos corta ao meio. Deveras humana é a dimensão que nos liga a existência enraizada no instinto. Acaso tem a formiga a possibilidade de compreender, por mínima que seja a volatividade do fogo do espírito?. E não teria o homem tornado-se formiga, ao trilhar o caminho cindido? Quais as certezas podemos acessar, verdadeiramente, ao fazer as mesmas perguntas moldadas pela mesma forma da natureza animal que nos encontramos enquanto apenas terra?. Alguns animais reproduzem-se sozinhos, outros ouvem sons que não posso ouvir, tem luz noturna, a cor violeta, sentem o tempo, a nuvem, a próxima estação. E mesmo não sabendo-se assim, como eles, me coloco num degrau acima, por julgar que a milha colônia, é todo o universo. Quando buscamos água em outras terras, para saber se por ali já houve/haverá vida, estamos projetando nossa limitação humana, estamos procurando outros ‘animais’, que precisam e são constituídos da mesma matéria que meu corpo. Vida, é o espírito que anima o corpo. O que é eterno não precisa ser alimentado, pois em essência é unidade. As necessidades existem pelo distanciamento da fonte. É o que vejo, entre os véus que me cercam também, aqui do lado de fora.

25 de setembro de 2011

Descubro que o sono tem a medida da minha saudade
É uma lança perdida nas mares do tempo, espaço único
Voando leve aos sonhos lembrança do que sou – em verdade
Tamanha coragem é preciso, para voltar aqui
Onde deixo minhas frágeis vestes do medo
Que gerou em mim a ilusão de ser, além da poesia onírica

22 de setembro de 2011


No templo do sol
Aquece um rio doce
Com margens largas
E horizonte ao sul
Da segunda curvatura
Onde o lençol da noite
Encobre
A luz que é toda
Verdadeira estrela


Porque você está em paz
Quando dentro de mim
Tudo é guerra
Anuncio o fim do nosso tempo.
E quando você se for de mim
Em busca de ti
E quando por caminhos contrários
Eu também
Me for de ti
Rumo a mim
Seremos a real experiência e unidade do amor

18 de setembro de 2011

Brejeiros e Condados

São algumas coisas que nascem com a flor, mas apenas quando é vento forte que se espalha vida afora. Para onde vai o sopro, ao infinito ou aqui do lado pouco importa. Tem o balanço de uma dança, o som de um verbo que se faz, o cheiro de sereno doce, que veste as manhãs enquanto muitos dormem, o gelado do campo em mãos pequenas, a doçura das coisas que aguçam os sentidos pela primeira vez. No movimento rumo a morada do sol, prestamos honras ao espaço vazio da memória.

4 de setembro de 2011

2011

2011. onze anos após o famigerado pseudo- fim-dos-tempos. permanecem. ela e toda a humanidade. encontra-se envolvida com palavras. conheceram-se numa noite insone. tropeço na arte. alguns dias são de primavera. nem todos. não poderia. conserva o hábito de dialogar com outras estações.o tempo. ah! o tempo. cobram-lhe um fruto. antes do fim do seu tempo.

3 de setembro de 2011


Há um deserto dentro de mim. 
Outros tantos já falaram. 
Não do meu
nem dos seus
- acredito -
Apenas no deserto que paira.

2 de setembro de 2011

Ares – não de guerra, de fogo

Ecoou meu verso em fogo. Refletiu meu grito. Aqueceu o abismo do silêncio. Foi raiz e semente. Devolveu em flores o que brotou. Feito jardineiro cultivando palavras em pólen. Trouxe de longe, Ares e os ventos da criação, vermelho. Me deu a mão, aquela livre para tocar. Não era de primavera aquele tempo, era de estrela. Em qualquer estação se aquece a alma.  

1 de setembro de 2011

Solutio

Entre o céu e a terra, existiu um espaço (que se sabe onírico) de purificação. Lugar antigo, de morada, zelado por uma anciã que conduz. É uma dança sinuosa a chuva que cai ali, dissolvendo, comovendo. O pensamento tem a crença de que tudo ruirá, pela insistência da água dançante. Mas a natureza sabe da raiz do tempo, e da dor da solidez, já que tudo em um trecho do caminho, abraça seu contrário. Esperando a água que purifica o ser, existem dois frascos, um para os resíduos do corpo, e o outro para os resíduos da alma. Este último, diz a anciã, é para o veneno, que mortifica e chama a cura. Um dos frascos veste a cor vermelha.

31 de agosto de 2011

Sangro

Sangro muito a solidão. Qualquer sopro de vento ou palavra que não chega, me corta. O berço em que corre meu sangue é fio que conduz a outros rios. Em minhas veias abertas, corre a dor da flor que não se abriu. As feridas desenhadas em mim, são as mesmas daqueles que vieram antes, e que também não desabrocharam. Quando acordo, sinto a dor do mundo.

29 de agosto de 2011

27 de agosto de 2011

Passou


Não há alimento que entre pela boca.
Na morte, da ilusão dos sentidos
É que existe a eternidade

26 de agosto de 2011

Breve

Toda beleza e força do meu ser, vem da minha mais profunda escuridão.

Aquele pássaro

Era tão belo e raro aquele pássaro, vindo não se sabe de que norte, que segurou-o junto ao peito, bem próximo ao seu pulsar, desejando que ali ficasse para sempre. Entendeu que havia recebido uma graça [tantos véus adornam o ser, e como é belo o encantamento]. Houveram promessas de vôo, mas a medida de possuir só para sí aquele canto, era longa. É da natureza do desejo ser céu, horizonte. É da natureza do humano [que se perde na medida] não entender a natureza do vento. Tanto querer impediram o desabrochar das asas, não houve vôo. E sendo pedra, perdeu tamanhã graça, aquele que aprisionou.

sob a terra

sufoco, morro lentamente, sem ar, sem luz, e me desfaço junto a terra.
talvez reste algo de mim que germine, vire semente, fruto ou retorne ao nada.
e ainda um breve fio de consciência indaga se é vida, 
o que existe acima do túmulo.

25 de agosto de 2011

Ressurreição


ao impulso instintivo que se dizia morto, te apresento a palavra: ressurreição!
e eis que quem morre é tua vã consciencia, do nada.
a quem dirijo a palavra? 
o que há por trás do espectro do que dizes ser tú, em verdade?

24 de agosto de 2011

Acídia


Hoje, afirmo, que nem os bens do espírito seriam alimento à minha dor. Vivenciar uma realidade moral ligada ao chamado da alma, é uma fantasia de entretenimento. Ao lado não há pares. Cada qual busca adições ao ego, nada mais, de onde quer que elas venham, desde que venham em abundância. Não há deveres, não há expectativas, não há promessas, e isso é a verdade, de outra forma, estamos criando roteiros onde não podemos atuar. O caminho é individual, reafirmo, embora existam situações tão sedutoras que nos fazer crer que poderia ser diferente, mas não é. Essas palavras não são um lamento, são constatações do que se trata a realidade das meias-relações.  Alguém quer outro alguém, e todo o resto. Com algumas concessões que não ferem o rei. Neste momento do tempo, entendi que tudo é vento, e quanto mais sabedoria, mais silêncio. Primitivamente São Gregório propõe como um dos sete pecados capitais a acídia, ou tristeza, que é um sentimento ligado somente as questões interiores daqueles que vivem a ermo, e precede os outros vícios ou pecados. Somente uma alma triste precisa de adições, se move pelo impulso de prazer, e abre-se a interfaces múltiplas, que lhe trazem cor e afago momentâneo. É a doença do nosso tempo, crônica, e é verdadeiramente, a paixão (pathos) da alma. Sei que falta a poesia, mas ainda há espetáculo. Então, que venha a platéia, jogar flores mortas ao túmulo.

22 de agosto de 2011

Velha profecia de hoje

Ah sim, o progresso! a nova arte coletiva de vida: saiam de suas casas e habitem a periferia indolor do ser. Aqueles que não forem ou se derem ao retorno, santificai o movimento de não olhar onde os pés trilharam. Reconhecerás o caminho do teu lar, olhando para a frente e para o centro. Como a flor e a raiz, que possuem consciência diferente, e ainda assim, sabem da direção do grande girassol do mundo.

19 de agosto de 2011

Perséfone


Encantou-me a flor de narciso. Raptam-me ao mundo dos mortos, onde me ofereceram um fruto doce, que me fez cativa. Ora luz, ora sombra. Entre os deuses decidiram. Transito entre os dois mundos, mas sou senhora do oculto, onde também sei do amor. Não há muros que os separam, logo, não me encontro dividida. Sou mercurial. 

18 de agosto de 2011

No meio do caminho


                Havia uma festividade. No meio do caminho algumas almas dançantes encontraram a celebração da vida. Ali, foi servido um alimento amargo, que causava dor. Era para um novo paladar, coisa genuína. Desconhecidos, a seu próprio sabor, questionaram a semente, e a mão que a levou a terra. Lançaram os frutos ao vento. Não mais seguiram a dança. “A cura vem de alguma coisa sabida como veneno, e tem a medida exata da doença” -  disse aquele que celebrou, de fato.        

17 de agosto de 2011

Em breve curso de Sonhos

trans
      (formar) 
                   o sonho em poesia
ou melodia

mas-acima-de-tudo-deixar-que-ele-viva

É para o que não vejo que lanço meu olhar


[ São muitos os que vivem em mim. Sou a manifestação de toda humanidade. Também de seus perigos. Tudo manifesto. Ora constela a serenidade da certeza do eu, ora sou o palco de uma energia sem controle que vem das profundezas sem luz. É um grito, de uma imagem primordial da criação, caótica aos olhos da consciência. É assim algumas vezes, quando vou longe do meu centro, quando tomo outra forma, quando indiferenciada. É quando meu desejo despreza o mundo, se separa, ri, certo de que tudo, não passa de um sonho, ou de mais uma travessura de Eros ]

[ No caminho entre a morte e a vida, há um vale, experimento o receio antes da descida. Trago alguém comigo. Vamos ao lugar de grandes escadarias, pedra, noite, brumas. É incerto o alimento que nos nutre ali. Pelo caminho desconhecido do retorno, peço passagem. Me tiram as vestes, me paralisam, me roubam a palavra. São desdobramentos do meu medo, que me cercam por três lados. Fantasiados. No caminho entre a morte e a vida, ao lado do vale, ouço um sussurro: ‘nunca o medo havia passado por aqui antes’. Dentro de mim mora a flor da vida, que olha apenas em uma única direção ]

15 de agosto de 2011

Caminhos


voou longe aquele gesto
acenou em amparo
pedindo abrigo
ofereceu alguma coisa doce
palavras conhecidas
mas de fato 
o que fazia ia longe 
bem longe
do poema que soprou.
talvez fosse outra língua
ou era apenas o mesmo momento
no mesmo abrigo
até a tempestade passar
aquele encontro

Solidão


É só um cansaço por tanta adequação.
Até um dia em que se perde a forma.
E se torna qualquer outra coisa que não é você
(em nome de que?)

12 de agosto de 2011

As estrelas não são fixas (para Campbell)


Despeço-me do campo do tempo (tão longo aceno), deixo-o porque creio na eternidade da dimensão do hoje, e não em tempos futuros, quando jaz. Afirmo o mundo, não o nego, creio no impulso natural da vida e mais do que entendê-la, minha urgência tanta, é de me sentir viva. Minha vida, articulada a um poema contínuo. A canção do universo, sem dualidades, luz-sombra, homem-mulher, bem-mal, ser ou não ser. E nesse caminho, único, para além da dualidade, me descubro criação: Deus.

Brinde


É preciso sofrer sem ser visto. Na ante-sala apenas risos. Não me conte de suas dores, é lei: cada um dê conta das suas. Compartilhemos apenas, a alegria da alienação que sustenta o ego. Ao ser, o cárcere privado. Brindemos as máscaras!

6 de agosto de 2011

Breve

És palavra doce que não enjoa, 
porque entoa um canto que me encanta a poesia.

Labor

É no tempo da matéria finita que me demoro, artífice de mim  mesma, trabalho para transpor a grossa camada de cinzas e lodo que me compõe, esquecida e pequena semente a espera de vir à luz. Não é em vão esse hoje, nem as longas noites negras em que me demoro. 

5 de agosto de 2011

Contínuo

Infinitamente contínuo. Assim o descrevo. Nada mais posso acrescentar àquele de veste única. Pousa e repousa no mesmo gesto, impele, impõe. Está sentado em cima do muro, cobre a luz do sol. Faz sombra. Das coisas do infinito (assim entendo) não há morte. 

1 de agosto de 2011

nem palavra

Ainda falta intimidade com o silêncio. Conservo uma paixão escancarada com a palavra. Ali, jaz esse rei desconhecido que acena em mim, ao longe. Alguns anos ancorada no cais, cultivando o musgo verde da permanência, não ouço (nem em conchas) a sonoridade do mar, ondulado em vento.

28 de julho de 2011

Pouco

Não poderia discorrer sobre muito mais. Tudo anda pouco. Preciso de mais uma dose - de vida. Sobriedade é cansaço sem cor. Sem êxtase. Já devorei todas as palavras e gestos. É o que posso.Tudo anda pouco.  

26 de julho de 2011

Náufragos

me dê a magia de acreditar que és um náufrago em mim sem passado. que a poesia do cotidiano é merecidamente para o encanto que nunca vivestes assim, enquanto ilha.  me acorde a tempo de ver o sol, depois de esgotar-me em lua. me tenha nua, sem a memória dos teus poucos anos, além de nós. me entregues tua fragilidade, mas não me digas que é assim também teu amor. é preciso um verso forte para sobreviver em certas circunstâncias. aqui onde estamos, só nos resta a busca de tesouros escondidos nas sombras do que ainda paira em nós. os barcos a deriva não carregam horizontes além do que já temos. sejamos nativos dessa terra que pisamos ontem, quando acordamos juntos, após longa viagem em náuseas. 

21 de julho de 2011

20 de julho de 2011

Errância

Nem náufrago
Nem continente
És marinheiro
Natureza
Errante
Conjugas
O verbo
Amar
A cada
Porto

18 de julho de 2011

Sutil

Passou
Rápido
Foi
Devagar
O tempo

Decida(se...)

Sim, entendo. Os sentimentos não trilham os mesmos caminhos da razão, mas sou uma só, logo, creio que estes desconhecidos entre si, tenham alguma conexão. Ambos são legítimos, e não são vistos a distância, então, por favor meu amor, aproxime-se. Permita que eu negue a tua verdade em nome da minha, não sempre, algumas vezes apenas. Algo me diz que a aceitação parte de ambos. Aqui estou, a caminho do sentimento que não tinha, mas me destes a mão e hoje trilho contigo num caminho sutil. Acolhi teu sentimento, dentro do meu. Da razão (minha e tua) não sei por quais caminhos segue, e verdadeiramente minha lógica não compreende porque acreditas que sou eu que carrego tuas malas conosco. Já que são em tuas mãos que elas estão. Insistes em não largar, me negando. Ainda não é possível a compreensão de que duas coisas podem existir no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Pergunto: Existe lugar para sentar a mesa contigo? Vejo todas as cadeiras ocupadas. Sombras. Abro meus olhos e vejo. Ouço ecos. Sinto em tuas palavras, até mesmo naquelas que calas. Sou antiga, de um olhar que ainda não tens. Então não faço sentido para ti. Saiba que algumas combinações são perigosas, outras amargas. Seremos elementos compatíveis, no instante em que nos falta o ar? Olhei para ti num instante poético, único. Não vi a multidão que o cercava e que agora me fere. O melhor de nós dois existe por um ato do que as vezes entendemos por amor. Mas a existência do que é vida, para mim, depende de ações de cultivo, e ando secando, dia-a-dia, quando te sei, ontem. Decida o momento em que possa se despedir do ontem. Decida o momento em que possa deixar as malas. Decida quando. Decida (se). No instante seguinte, ouvirá o silêncio das mil vozes que calo em mim, enquanto você não está.

14 de julho de 2011

Devir

Existe uma canção que toca a alma
Enquanto o mundo ainda é criação
Espera florescer àqueles
No templo do silêncio
Que se embalam
Na dança do vento
Tem o coração em graça
E se põe em verso.

Tempo (és novo e és ontem)

Júbilo e graça às correntes do tempo. É assim a cada passo que é dado, olhando para trás. Ao que jaz. Alegria travada entre os dentes. Das leituras póstumas, de outros. Contendo a primavera, em meio a cinzas. Presente, do cultivo da palavra morna.

13 de julho de 2011

Na noite negra da alma

Tomou um cálice de veneno das mãos do curador.
Sentiu o perfume da rosa.
Lembrou que tinha espinhos.

12 de julho de 2011

(im) permanência

Não me tenha permanência, pois estou de passagem. Entrei por aquela porta que encontrava-se aberta e aquilo me pareceu adequado, pelo frio que fazia em mim. Deveria ter avisado, não soube dizer. Não é meu mundo. Não é meu chão. Não me sei num lugar onde tantos já foram. Não me sei assim, inteira, como deve.
-
Não sei quanto tempo é meu presente, nem meu futuro. E neste tempo incerto, não aprendi teus gestos de amor a mim. Impermanente. Não permaneço ali. Não me encante com a beleza, não sorria, não me cante poesia, tudo é sonho. Acordei há um tempo e vi que não pertenço. Então não tranque a porta, não me tenha permanência, sou viajante.
-
Não me tenha mal.

11 de julho de 2011

Graça

É aquilo que recebes quando o rei morre e se dissolve.

Num trecho do caminho

Era um trecho de calmaria, descanso, ausência, não sabia ao certo. Havia uma distância segura, que não era medida pelo tempo, entre a fonte e o medo. Alguns viam como solidão, tristeza, mas a medida de tantos, agora não fazia sentido, não tocava. Ali, naquele ponto, não pensava certezas, apenas seguia uma música que ouvia no peito, afago. Quando queria o avesso, faltava a poesia. Era a maior proximidade que já houvera, e também a fome. Não seriam respostas, toda aquela luz. Ainda não tinha olhos para ver, naquele trecho do caminho, acostumada as sombras.

8 de julho de 2011

Via una

Percebeu que aquilo que vestia, eram mordaças que lhe foram postas assim que adormeceu, e acordou naquele lugar. Era necessário para a descida. Foram longos anos de desconforto interno. Pertencia a tudo, menos a ela mesma. Aconteceu, em algum momento, que se perdeu na memória. Quando a pele gritou a dor, moveu um músculo e sentiu que era de dentro, o pulsar. Havia tamanha força naquilo que descobrira, que tudo além, desfalecia, gota-a-gota.  Largou as mãos, deu adeus e seguiu para o centro, despedaçando-se do que ainda eram vestes. Chorou saudade, gritou o medo e colheu o frio. Vasto querer, e longo despertar sem volta. Pensara nas longas vestes que deixou para trás, e que não lhe cabiam mais, pois tinham forma semelhante a todos. Também aquela forma de pensar, pertencia a outro tempo, então tratou de silenciar a mente. Agora não tinha espelhos, mas sabia-se, e era tudo.

5 de julho de 2011

anunciação


Que venham os homens desconhecidos rezarem suas preces em praça pública. Que tragam consigo mensagens dos céus e as boas novas para aqueles sem poder. Que se apresentem serenos mas também aos gritos para os tantos que não ouvem, porque é necessário o espanto aos que insistem no sono. Poucos são os que param a máquina do tempo e presenteiam a luz. Sou aquela que não vê o tempo, mas ouço as vozes do passado, quando era imperceptível sombra. Em algum ponto do caminho é frio e silêncio, então resguardo-me, mesmo quando alguém me acena um gesto, de longe.

28 de junho de 2011

Distante

não importa onde
importa que me leve junto
pois as vezes me esqueço
em algum lugar
do passado
criado
vivido
sonhado
me deixo as vezes tão longe
que nem me sinto mais
acontece
sempre
nas manhãs que acordo.

20 de junho de 2011

Concreto

                                                      Im-provável.
                                                      Im-perfeito.
                                                      Im-possível.
                                   - Inevitável -
                                                                                             E ainda assim: lindo!
desconfio que da mesmíssima coisa
não se cria poema.

17 de junho de 2011

a conhecer

Não te aborreças de mim,
Das vezes em que recuo a tua porta.
É porque ainda vejo
Aqui fora, um sol maior.
(embora tudo seja céu)

Breve

Entre maças, romãs e rosas,
                               levei comigo o vermelho da chama.
Era manhã de cor e gelo,
                               aqui dentro.

15 de junho de 2011

O outro

O outro fatalmente será alguém que não eu mesma. Digo o outro, mas o correto seria outros, já que existem mais outros do que eu mesma. Sou única, os outros são os outros diferentes de mim, porém únicos em sua individualidade. A mim, cabe unicamente meu eu, posição que me coloca distante de uma postura politicamente correta, assumo. Mas passo longe da hipocrisia, garanto. Por isso apenas eu mesma, e o outro em relação a mim. De um outro ponto de vista também sou um outro em relação a alguém, o que não vem ao caso – não no meu caso. Do ponto de vista essencial o outro exerce força sobre mim, pela conexão que tem aquilo que nos liga, que não tem haver com quaisquer ‘ismos’, mas porque o outro existe para me mostrar quem sou (tenho apenas um espelho fosco). Obviamente prefiro o outro que mostre minha face mais bela, que não me contrarie, e que seja parecido com aquilo que quero acreditar que sou, de fato, pois sou contrária a dor. Em tempos, contrária ao outro desconhecido, tenho amparado muitos outros, com o objetivo único e individual de que esse outro desconhecido, se torne conhecido a mim. Embora, secretamente, ainda tenha desejo de que o outro seja par. Tenho a certeza que o outro não sou eu, embora as vezes também tenha certeza de que posso, eu mesma, ser um outro qualquer, vivendo como eu, o que estremece minha identidade. Outro dia, em conversa com um outro que me habita, decidimos pela mudança, mudar de mim mesma, habitar outros eus, todos juntos.

14 de junho de 2011

Saudade

Se soubesse que morrerias tão cedo,
teria ouvido mais teus poemas tristes.
Minha própria dor, que era tão perto da tua,
me tornou estéril a ti.
Hoje, quando mais longe, mais te sinto vida,
E mais te sinto em saudade.

13 de junho de 2011

Nada

No instante seguinte esvazia-se a vontade.
Dá adeus quando desperto.
É a vivência do nada,
que quase não se pode transformar em versos.

7 de junho de 2011

desperta

Sejamos libertos
Das ilusões que alimentamos e das prisões que nos trancam.
Essencialmente apenas somos – todos.
Acaso algum animal é escravo de si mesmo?
Recorda textos antigos, guardados, empoeirados na gaveta do tempo.
Aprende tua própria linguagem, saindo do caminho fundo.
Não te percebes vida, porque estais a velar no funeral com todos.
Caminhas em outra direção, que nos primeiros passos se faz frio e dor.
Acorda do sono vulgar e sonharás! O sonho é o exercício da alma.
Em tempos de cegueira, poesia é palavra esquecida.

27 de maio de 2011

noite

Era desses tipos excêntricos que são apenas nas noites. Apenas. Certa vez, depois da exaustão da existência soturna, resolveu entregar-se a ela, ainda enquanto. Após a ausência no dia,  chegou  em casa, espalhou suas coisas, como de costume, procurou em vão por comida saudável, abraçou seu cachorro, não abriu a correspondência, deletou mensagens telefônicas sem ouví-las, desprendeu-se do dia,  apagou memórias, deixou de sentir seu coração apertado, não viu a lágrima, nem sentiu seu gosto amargo, leu as poesias que lhe mandavam (todas), olhou-se no espelho, pensou num banho, aqueceu-se por dentro, sentiu a pele, pois era assim que gostava. Entregou-se ao leito enquanto a noite ainda cedo. Em sua cama havia um anjo antigo, que sonhava. Viu seu sonho. Permitiu-se. E nunca mais acordou.

25 de maio de 2011

Raridade

pessoa, coisa ou objeto raro, 
curiosidade, 
exaustão, 
excelência, 
rarefação, 
pouca frequência,
único.

23 de maio de 2011

Gita

Ouvi um chamado antigo, que batia a porta de quem veio antes de mim. Alguém vinha para a comunhão, mas em sonho. A pureza era necessária para a subida do abismo. E então as portas mantiveram-se trancadas. Até agora. Pois antes havia medo, não amor. Na contramão da periferia, o caminhar era lento, dolorido, amargo, feio. Era a vivência do aprisionamento do olhar viciado, pois também antigo, heranças que sangravam. A experiência que não compõe poesia exata, pois é das coisas dos que calam. Não fui livre para tal escolha – como dizem. Mas dei acolhimento, receosa. Sei das juras daquilo que clama, acredito. Ainda me despindo das vestes do que fui, me purifico, estou à porta, estendendo a mão, alma em chagas, em dor. Sou quem abre a porta. Sou o que chama. Em tempo, hei de me mostrar. 


Através

Queria ver a beleza de alguém que a mim chegasse  sem voz – mudo.
E que nesse silêncio pudéssemos falar (e calar) todo o nosso ser.
Vem da beleza do olhar, de quem observa e guarda o mundo em si – em cores.
É assim, porque palavras são murmúrios que mortificam.
Lembrança antiga essa: Não falar, somente o ser, por longo tempo.
É quando se ama.

Medida

Dessas tais urgências da carne,
que não mais sustentam minha alma.
Ainda escrevo, pois é preciso.
Mas não sei dizer – então me calo.

Leve e Breve

Vem, e deixa apenas seu cheiro.
O resto leva embora.
Breve.
É apenas uma lembrança.
Não chega a existir.

21 de maio de 2011

Bricoler

Como é possível costurar um momento ao outro?
O ontem, mais do que o hoje, me parece tudo. 

20 de maio de 2011

Ausência

Em segredo, iniciei várias vezes o diálogo, sem resposta. Daqueles sentimentos felizes e tristes que só se pode compartilhar a quem pode ouvir. Me arrasto em monólogos desfeitos, não posso mais com palavras do que sou. É infinita a distância que me separa do comum que me cerca. Pessoas cheias e vazias de si mesmo. Morro, quase todas as vezes que me desfaço naquilo que não sou. Ainda assim, vejo poesias nos dias, embora seja noite. Não compartilho meu abismo noturno, ninguém está lá, embora ao meu redor sinta presença (muda). Já tive tantas despedidas, mas sempre volto ao meu encontro, embora às vezes não me reconheça. Talvez não devesse mais partir, ou não mais voltar. Ando descuidada do que me é alheio – reconheço. Lamentos, murmúrios, ilusões, raso. Sou em outro tempo, de poucos, e ando lentamente, antiga. O longo abraço que me enlaça é triste, pois não me alcança. Quero me sentar com um anjo amigo, todos os dias, e pedir ausência, de tudo que me cansa, mas sei, que essa não é minha vontade primeira. Alguém, que na morte entenda minha poesia, saberá meu eu e estará comigo, como um infinito poema. Mas já é tarde para o encontro, pois a escuridão é imensa.

17 de maio de 2011

Ser

Tudo vinha antes.
O depois eram os cacarecos da mente que estava na periferia.
Antes e depois são desconhecidos do ser.
O medo também.
Traz sabedoria o que vem do mítico - e dor.

16 de maio de 2011

Breve

Houvesse um lugar para além desse labirinto de delírios que percorro, 
estaria ausente quando. 
E sendo, então, me saberia inteira.

27 de abril de 2011

Brumas

Houvesse um lugar além desse labirinto de delírios que percorro, estaria ausente quando. E sendo, então, me saberia inteira. Tão mística quanto Deus, que me aproximo hoje. Sem dor. 

26 de abril de 2011

25 de abril de 2011

Samsara

Versos transitórios.
Regresso. Impermanência.
De um certo jeito de amor que ao medo não convém.
Eis-me aqui - sem magia.

17 de abril de 2011

16 de abril de 2011

Indício

Fico com teu cheiro, que percorre meu caminho de dentro.
Acontece no meu corpo e dura cinco dias.
Depois me refazes.
A permanência do estar em mim, sem forma.
Vazio é um estado anterior.

14 de abril de 2011

Da taça onde me deito

Tão humano é meu desejo que acredita que posso te tomar em mim. 
Como vinho. Líquido.
Sendo a fonte conhecida, não te pensaria.

13 de abril de 2011

Noutras vezes

Nada é o que sinto. 
Mesmo quando adentras meu templo em prazeres que gritam minha carne. 
Quero te dizer meu ser, emudecido e sem forma.
Que sonha ainda, para poder existir.

12 de abril de 2011

Ao tempo

Antiquíssima é minha idade.
Do tempo (incerto) onde essa via enraizada ainda soava em sentido profundo.
Onde era levada pelas mãos de um Deus que falava em mim.
Havia um paraíso ao lado. Permitido. E o desconhecimento da sombra da morte.
Agora medito naquilo que é feito carne, e que se chamam rosas.

11 de abril de 2011

Em outro

Deito-me ao lado daquele que em fantasia ainda entendo como sendo 'outro'. Tal anjo é um espelho. Me construo a partir de um reflexo. Não toco. Não sou tocada. Tão somente imagem. Via abissal, querendo aquilo que se chama espírito. Vem de mim. Tem asas (por isso a leveza). Existe por si só. Me sei por ora, demasiada humana, pois ainda sou metade, que adormece no 'outro', que está ao lado, mas tão somente dentro.

10 de abril de 2011

Ausência

são nas noites imensas, quando ouço o silêncio das vozes todas, que me percebo sem mim: ausente. isso me parece tudo. também a dor que isso que me causa. acontece porque me canso da imensidão das noites, quando me percebo sem mim.

9 de abril de 2011

Em noites

Há o desejo que encontro no descaminho. 
Desejo que me habita. Me obriga. Tenta. Consegue. 
Envolve a alma e sorri.

8 de abril de 2011

Onde se movem os astros

Enquanto os dias não chegam,
Ele me sabe nos céus - de opacas sombras.
Que não se demore tão longe.
Os acasos anseiam se cumprir.

7 de abril de 2011

3 de abril de 2011

Via úmida

Passe(e)i por toda noite
Cobrindo a nudez
De alguém cujo corpo não ia longe
Pois era cercado pela dor da queda.
Não fosse ela,
Talvez seria mar aberto.
...
Parada aos pensamentos que tropeçaram na cor do desejo,
Enquanto as palavras compunham o ritmo do corpo
Que era de uma poesia quase inteira – não fosse a dor
Que dizia, para além da queda
E seguia, para além da noite. 

21 de fevereiro de 2011

Para Quintana

e por ser igual a muitos, ia atrás das borboletas, 
que por falta de jardins, eram raras naqueles tempos. 
de tanto voltar de mãos vazias, começou a semear, 
e a florescer.

3 de fevereiro de 2011

Esculpir


A poesia me dá continente,
me abraça,
me aproxima,
me enlaça, 
me arranca da impermanência,
me tira do exílio do eu,
...
e me entrega a outros.

25 de janeiro de 2011

19 de janeiro de 2011

Desprendimento

Isso de mim, que anseia desprendimento,
Penitente e tortuoso,
(Por que haveria de desejar o abraço eterno ao que não é meu?)
Ainda agarra-se ao que já é morto.
Fosso de um laço invisível e efêmero, do qual o que sou me diz: nunca mais!
Não sei ainda por qual horizonte me guiar,
Tampouco, a quem deixar aquilo de que me desprendo.
Esqueço o nome das coisas que me cercam, me excedem,
Na certeza que não mais valorar o que desconheço.
Desprender-me torna leve, e também solitário,
O caminho no qual ninguém está comigo.
Olho para trás porque ainda não sepultei meus mortos,
Ainda não dei adeus, não chorei todas as lágrimas, não purguei a noite.
Ainda meu corpo em chagas, clama por aquilo que entende por parte.
Ainda sou ontem,
Querendo apressar o tempo da dor que sinto, por deixar-me como me entendo hoje.
Ainda sou um querer antigo.
Então, isso de mim que anseia por desprendimento,
Ainda me vê pequena.
Ao certo ainda não sei seguir - sem deixar o que não sou.
Meu anseio tímido, é por saber-me apenas,
Sem rosto, corpo, nome e bagagem.

Lua Nua

E a lua nos mostra sua face iluminada,
e traz consigo, promessas de etecéteras...

18 de janeiro de 2011

Crença

Já não me cabe mais,
Essa tal realidade, verdade, metade, enquanto parte.
Só posso acreditar numa verdade que venha dos sonhos,
Onde as meias verdades, metades e partes,
Coincidem, se encontram e se tocam.
Onde nada – sendo todo,
É eternidade.

17 de janeiro de 2011

Breve olhar de ontem

Olhar a alma com calma...
O olhar vê apenas o que vê.
Não sei sentir com os olhos,
Mas a alma - tantas,
Vê e sente aquilo que é - até.
E segue prevendo,
Aquilo que os olhos - estranhos à própria imagem,
Não conseguem reter, absorvidos em longos fios de pensamentos.
Breve olhar dos olhos, à margem do que se é, em sí.
Alheios, daquilo que na alma, já é eterno.

14 de janeiro de 2011

Outrora era eu

As palavras são o fio condutor do descobrimento.
Quem hoje, mais sabe de mim, nunca me viu, me tocou,
Nem mesmo ouviu minha voz ao longe.
Me descubro em palavras de um século distante,
Em versos recitados numa língua estranha à minha.
Em personagens, velhos, loucos, crianças, deuses que falam da minha vida,
Que falam do meu eu, do qual pouco sei, antes de lê-los.
Inexistente seria, se não fossem as palavras dos que já não estão aqui.
Tenho idade avançada, pois já existia, mesmo antes de existir.
Minha missão é: descobrir pela alquimia das palavras,
O que sou – ontem,
Pois o agora e o amanhã, também passado – já estão escritos.

Conduza-me

12 de janeiro de 2011

(in) Probabilidades

Algumas pessoas unem todas as coisas,
Mas são improváveis.
Improváveis à meia luz da consciência.
Porque não existem pessoas ou coisas improváveis.
O que existe, são limitações daquilo que se vê,
Enquanto metade.

11 de janeiro de 2011

Valor

Gostaria de não saber do gosto - amargo,
Nem do rosto – lastimoso,
Da morte, que vivo diariamente,
De tudo que em mim, já não tem mais valor,
Nem tampouco sabor.

9 de janeiro de 2011

Paradeiro

                                        Qual o paradeiro do amor,
                                                                        que se evita,
                                        Tentando evitar a dor?

Quando silencio

Minhas melhores poesias estão nas palavras não ditas.
Sabidas apenas pelos cúmplices,
Que comigo silenciam.

5 de janeiro de 2011

29 teses sobre a noite

1° tese:
Os olhos que vêem a noite não são os olhos que vêem o dia.

2° tese:
A luz do dia esconde a forma da noite.

3° tese:
Da janela vejo outra janela,
Outra alma,
Outra pessoa que sonha,
Assim como eu,
Acordada.

4° tese:
A leitura me entorpece,
Calmante ingerido, quando todos dormem.

5° tese:
De dia não leio,
Há barulho.
Leio à noite,
No silêncio - dos que dormem.

6° tese:
A noite converso com eus desconhecidos.
Vejo,
Toco,
Sinto.

7° tese:
Acordo todas as noites para a vida.
De dia durmo.
Sou do avesso.

8° tese:
Me vejo nua na escuridão da noite, gosto assim – pele.

9° tese:
Tem uma luz que me vigia, me cuida, quando tudo se apaga.

10° tese:
O dia é longo,
E a noite é curta,
Pra tudo que quero em mim.

11° tese:
A noite vago por dentro de mim mesma,
Me investigo,
Me sinto,
Caminho longo.
Preciso de todas as noites assim – pra mim.

12° tese:
Aqueles das palavras, vem ter comigo às noites:
Joyce, Leminski, Machado, e outros que nem sei o nome.
Gritam em mim querendo falar.
Sou uma só.

13° tese:
Sei da noite mais que os outros.
Me alimento dela.
Sou eu mesma na madrugada - o meu alimento.

14° tese:
Rascunho dores, medos, desejos, alegrias, lágrimas, saudades, e até Deus.
Depois rasgo tudo e jogo fora.
A-manhã não me serve mais.

15° tese:
Bicho noturno.
Arredio.
Fugidio.
Sou eu em instinto – me reconheço.

16° tese:
Apresso o relógio. Corto as horas. Mutilo manhãs e tardes.
Apenas as noites.

17° tese:
Me dou durante as noites.
Durante o dia me empresto.

18° tese:
Abro os olhos para ver o dia.
A noite posso fechá-los.

19° tese:
A coragem e o desejo dormem de dia,
Cansaço.
Despertam à noite.
Com a noite - pela noite afora.

20° tese:
A noite.
Me reconheço
Bicho nú.

21° tese:
Falo em sonhos,
Com todos que me tem.
E em todos em que estou.

22° tese:
Se algum fantasma chegar de surpresa,
Será surpreendido pelos meus fantasmas.

23° tese:
Faço convite para que entrem comigo na noite,
Muitos ficam à porta.
Poucos atravessam,
Labirinto meu.

24° tese:
Não vem de fora o que habita em mim,
Vem da noite.
Noite de mim mesma.

25° tese:
Muitos me trazem velas,
Candeeiros,
Lamparinas,
Assopro o que não é de mim então.

26° tese:
De dia sou razão.
Razão pra que?

27° tese:
Pássaro noturno que não tem asas durante dia claro.

28° tese:
O Zelador noturno anuncia, com seu apito,
De hora em hora,
Que é zeloso pelos perigos do dia.

29° tese:
Foi o que foi – o dia!
É o que é – a noite!