1 de dezembro de 2010

Para tudo que é tão regrado

"Por favor meu senhor, não me peça seriedade, não me impeça o riso, não me diga que a ironia é corrosiva às relações, não me diga o caminho a seguir, pois estou indo em direção contrária, não me diga coisas e coisas sobre mim, pois de mim pouco sei, vou indo longe, distante de ti e a cada grito seu, mais os ventos contrários sopram em meus ouvidos, impedindo que ouça tuas palavras hipócritas, pensadas, já lidas, já ditas, já repetidas, não me fale de seu modelo, pois o mesmo não me cabe, não me diga a que veio, não tente me entender, dialogue comigo na minha língua, aprenda meu idioma, leia meus lábios, meu corpo, minhas palavras, mesmo que de longe, não me peça sanidade, coerência, postura, desconheço regras desse seu sistema de vida, já nasci torta, de esquerda, do contrário, aprendi sobre teu mundo em pouco tempo, vou além, não sei ser igual a ti, não posso, é demasiado pesado fingir fraternidade a algo tão morno, não me olhe com olhos penosos, não me queira em parte, pois só sei ser inteira, não me peça a meia entrega, não queira de mim um beijo no rosto,um aperto de mão, um compromisso com uma folha timbrada, um anel brilhante no dedo esquerdo, luta diária, fidelidade a mesmice, vestimentas em tom pastel e concordância com idéias póstumas, especialmente não me peça para ser eu mesma sempre, não me peça amanhã que eu pense como hoje, me desconheça vez em quando, me procure, me ache onde eu ainda não te encontrei, não me peça lugar comum, não me peça para ser solidária a escravidão de uma multidão, não quero recapitular o hábito, não me cerque, venha ter comigo em minhas diversas faces e em minhas diversas fases, há doçura em minhas ironias, há beleza no meu riso descabido, há presença na minha ausência junto a ti, mas não há espaço para tudo sempre assim, há uma eternidade sublime no meu desejo de ir além disso tudo que vemos, que temos e que é apenas parte, sou urgente, inconseqüente, duvidosa, tenho apenas as noites, o sonho e o delírio que não podes ver,  porque tens olhos turvos para mim, para minhas cores, para meu querer tão imenso de vida que não vejo em ti, não do jeito que entendo essa vida, e então meu senhor, por favor, não me peça seriedade, não me impeça o riso e não me apresente a morte".

5 comentários:

Fernando Cid disse...

O manifesto da alma!! Sejamos anarquistas graças a "Deus"!!

Ricardo Steil disse...

Joyce, puro Joyce... Mandou bem, poetisa camp-rock.

THE WIZARD disse...

auto
bio
grafia

qoelheX disse...

(...)
"Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem"

Teacher's Pet disse...

Essa inspiração transgressora embora meiga vem de algo preso dentro de vc por uma mão opressora invisível? Aquela voz que sempre aparece pra nos tornar medrosos, mas que quando mandamos calar conseguimos aprender a pular de olhos fechados?...
Pula, san, pula mesmo... Respira a vida com prazer.