12 de dezembro de 2010

Conservatório (I)

Havia uma expectativa.
Dentre tantas, aquela era a mais proeminente no momento.
A expectativa de correspondência, digo correspondência a algo que se espera de outro, não do tempo, nem de Deus, de um outro ser humano, seja ele, filho, amante, empregado, amigo. Qualquer ser vivente, porque até mesmo de animais se espera determinado temperamento. Dentro do sistema.

Alguém deliberou assim:
- Considerando a razão e a lógica dos que vieram antes, firmados em suas raízes sólidas, e que já sabendo dos caminhos a serem trilhados, e suas implicações, tornaram público os princípios fundamentais de um sistema único qualquer, onde:
 “Não há surpresas, não há espanto, não há erros, se o agir estiver dentro das regras do sistema. Apenas o sistema. Entre no sistema, permaneça no sistema e terás a normalidade, serás visto como um homem de bem, como alguém de valor e com objetivos, guiarás tua vida pelos caminhos que outros, antes de ti já se guiaram, nele já existe pronto o que deverás fazer por toda sua vida, da infância à velhice. Já temos aqui, além do que deverás fazer, e em que tempo, como deves te comportar, reagir, o que deves falar, com quem deves te relacionar, o que evitar, o que mostrar, o que esconder, as palavras certas, os gestos comedidos que deves ter em público, a quem deves agradar, e com que vestes não chamarás a atenção para ti desnecessariamente. Não há lugar para o novo, há lugar para o que já foi, para o seguro, apenas para o sistema. Aqui dentro serás cuidado, a obrigatoriedade de seguir as regras, lhe trará amor, carinho, amigos e nunca te sentirás sozinho, porque seguindo as regras, terás pares, estarás incluído. Esqueça, ou não procure saber quem tu és, além de difícil, é ilusório, já que terás de oprimir parte de ti, em função do sistema. Busque superar expectativas, não as suas, as dos outros, surpreenda, corresponda, seja o que desejam de ti, dessa forma criarás laços de dependência. Inteligência é depender e ser dependente, existir para alguém e por alguém, a solidão trás a dor e só é regulamentada quando gerada dentro do sistema, para algum fim específico do próprio sistema. Não demonstre fraqueza, seja firme, desenvolva competências, dê seu sangue, vista a camisa, se molde, permita, diga sim. Não chore em público, a não ser para demonstrar compadecimento com os ‘menos favorecidos’. Siga as regras, ande com a multidão, não questione, adquira, sorria, seja cópia autêntica, não sonhe. Em troca terás paz, não destoarás, não serás apedrejado, ganharás muitas felicitações no natal e quem sabe um título honorário no final da vida”.

A não observância das normas acima dispostas constitui falta grave, passível de capitulação nos dispositivos do sistema, referentes ao exercício da vida dentro da normalidade.

Revogam-se as disposições em contrário.

2 comentários:

Fernando Cid disse...

Me faz lembrar "1984"

Ricardo Steil disse...

Tá aí um bom argumento para início de um romance - sim remete a 1984 ou Admirável Mundo Novo, mas, não quer dizer que a temática não possa ser reutilizada e condensada para o novo século, mas, vejo uma veia de Dostoievski na escrita também. Texto bem escrito, apesar de ter-me perdido um pouco com relação ao foco entre segundo e terceiro parágrafo (rompimento de modulação vocal no texto). Sonoridade ritimada enquanto leitura voz alta - o texto em si mantêm um padrão sonoro interessante. Reflexivo. Gostei poetisa, acho que no fundo, há mudança que há de vir e tanto esperas é o surgimento de uma nova escritora no pedaço. Deus e isto me preocupa, com teu nível vou ter que me desdobrar para escrever algo próximo de tamanha qualidade. Enfim você me deu trabalho para as férias, snif,snif!