23 de dezembro de 2010

20 de dezembro de 2010

19 de dezembro de 2010

P.S.

Não sou avessa a todos os hábitos.
Alguns até me soam compreensíveis e necessários,
Como o hábito de cometer-te!

12 de dezembro de 2010

Ao leste o sol, ao sul a lua

Encontraram-se às avessas,
No meio do caminho torto que ambos voavam.
Ensinou a ela a desaprender-se.
Em dois anos, muitos anos se passaram.
 A inércia deu cabo a si mesma,
E quando estando no mesmo chão, não se viram.
O delírio atava-os,
Viam apenas alguma coisa que a pele sentia.
Ouviam palavras um do outro em idioma próprio.
A razão nunca soube eles,
O estranhamento já era conhecido,
A distância era próxima e dormia junto, invisível.
Não viam as coisas por meios razoáveis,
E desafiavam um ao outro,
A serem olhados pelo lado de dentro,
De olhos fechados.

Conservatório (I)

Havia uma expectativa.
Dentre tantas, aquela era a mais proeminente no momento.
A expectativa de correspondência, digo correspondência a algo que se espera de outro, não do tempo, nem de Deus, de um outro ser humano, seja ele, filho, amante, empregado, amigo. Qualquer ser vivente, porque até mesmo de animais se espera determinado temperamento. Dentro do sistema.

Alguém deliberou assim:
- Considerando a razão e a lógica dos que vieram antes, firmados em suas raízes sólidas, e que já sabendo dos caminhos a serem trilhados, e suas implicações, tornaram público os princípios fundamentais de um sistema único qualquer, onde:
 “Não há surpresas, não há espanto, não há erros, se o agir estiver dentro das regras do sistema. Apenas o sistema. Entre no sistema, permaneça no sistema e terás a normalidade, serás visto como um homem de bem, como alguém de valor e com objetivos, guiarás tua vida pelos caminhos que outros, antes de ti já se guiaram, nele já existe pronto o que deverás fazer por toda sua vida, da infância à velhice. Já temos aqui, além do que deverás fazer, e em que tempo, como deves te comportar, reagir, o que deves falar, com quem deves te relacionar, o que evitar, o que mostrar, o que esconder, as palavras certas, os gestos comedidos que deves ter em público, a quem deves agradar, e com que vestes não chamarás a atenção para ti desnecessariamente. Não há lugar para o novo, há lugar para o que já foi, para o seguro, apenas para o sistema. Aqui dentro serás cuidado, a obrigatoriedade de seguir as regras, lhe trará amor, carinho, amigos e nunca te sentirás sozinho, porque seguindo as regras, terás pares, estarás incluído. Esqueça, ou não procure saber quem tu és, além de difícil, é ilusório, já que terás de oprimir parte de ti, em função do sistema. Busque superar expectativas, não as suas, as dos outros, surpreenda, corresponda, seja o que desejam de ti, dessa forma criarás laços de dependência. Inteligência é depender e ser dependente, existir para alguém e por alguém, a solidão trás a dor e só é regulamentada quando gerada dentro do sistema, para algum fim específico do próprio sistema. Não demonstre fraqueza, seja firme, desenvolva competências, dê seu sangue, vista a camisa, se molde, permita, diga sim. Não chore em público, a não ser para demonstrar compadecimento com os ‘menos favorecidos’. Siga as regras, ande com a multidão, não questione, adquira, sorria, seja cópia autêntica, não sonhe. Em troca terás paz, não destoarás, não serás apedrejado, ganharás muitas felicitações no natal e quem sabe um título honorário no final da vida”.

A não observância das normas acima dispostas constitui falta grave, passível de capitulação nos dispositivos do sistema, referentes ao exercício da vida dentro da normalidade.

Revogam-se as disposições em contrário.

5 de dezembro de 2010

De um querer maior

Enquanto tempestade,
Impossível à entrega ao amor sereno.
...
Ainda há ânsia (fome) desconhecida na alma,
Que não se contenta, nem se acalma,
Apenas com a saciedade do corpo.

3 de dezembro de 2010

Aqui

O convite que fiz ontem,
Não é extensivo à outros, apenas a ti.
Venha só,
Pois meu corpo também é único.

1 de dezembro de 2010

Para tudo que é tão regrado

"Por favor meu senhor, não me peça seriedade, não me impeça o riso, não me diga que a ironia é corrosiva às relações, não me diga o caminho a seguir, pois estou indo em direção contrária, não me diga coisas e coisas sobre mim, pois de mim pouco sei, vou indo longe, distante de ti e a cada grito seu, mais os ventos contrários sopram em meus ouvidos, impedindo que ouça tuas palavras hipócritas, pensadas, já lidas, já ditas, já repetidas, não me fale de seu modelo, pois o mesmo não me cabe, não me diga a que veio, não tente me entender, dialogue comigo na minha língua, aprenda meu idioma, leia meus lábios, meu corpo, minhas palavras, mesmo que de longe, não me peça sanidade, coerência, postura, desconheço regras desse seu sistema de vida, já nasci torta, de esquerda, do contrário, aprendi sobre teu mundo em pouco tempo, vou além, não sei ser igual a ti, não posso, é demasiado pesado fingir fraternidade a algo tão morno, não me olhe com olhos penosos, não me queira em parte, pois só sei ser inteira, não me peça a meia entrega, não queira de mim um beijo no rosto,um aperto de mão, um compromisso com uma folha timbrada, um anel brilhante no dedo esquerdo, luta diária, fidelidade a mesmice, vestimentas em tom pastel e concordância com idéias póstumas, especialmente não me peça para ser eu mesma sempre, não me peça amanhã que eu pense como hoje, me desconheça vez em quando, me procure, me ache onde eu ainda não te encontrei, não me peça lugar comum, não me peça para ser solidária a escravidão de uma multidão, não quero recapitular o hábito, não me cerque, venha ter comigo em minhas diversas faces e em minhas diversas fases, há doçura em minhas ironias, há beleza no meu riso descabido, há presença na minha ausência junto a ti, mas não há espaço para tudo sempre assim, há uma eternidade sublime no meu desejo de ir além disso tudo que vemos, que temos e que é apenas parte, sou urgente, inconseqüente, duvidosa, tenho apenas as noites, o sonho e o delírio que não podes ver,  porque tens olhos turvos para mim, para minhas cores, para meu querer tão imenso de vida que não vejo em ti, não do jeito que entendo essa vida, e então meu senhor, por favor, não me peça seriedade, não me impeça o riso e não me apresente a morte".