30 de novembro de 2010

Cabala

E as raízes rasgavam a terra e sobrepujavam a casa,
em busca de abraçar o céu.
Porque toda raiz tende a voltar de onde é nascida.

27 de novembro de 2010

23 de novembro de 2010

Causa Vitae

Morreram juntos – ela e seus pensamentos.
E depois da morte,
Acordou sozinha.
Aliviada.

16 de novembro de 2010

Tempo

Queria saber do tempo.
Deste tempo que passa por mim.
Deste tempo que passa apesar de mim.
Tempo fugidio.
Tempo não vivido.
Queria saber do tempo que passa,
mesmo quando cerro minhas mãos para contê-lo.
Queria saber do tempo, apenas daquele que se vai.
Queria saber deste tempo e seu paradeiro.
Queria saber deste tempo, ir com ele e nada mais.



12 de novembro de 2010

A linguagem da alma

Me perguntam: “Como ter tempo para a poesia?”
Eu pergunto: “Como não ter tempo para a poesia?”
Sendo que a poesia é o próprio pulsar da vida.
Em tudo há poesia, no belo, no sujo, no morno, até no tédio há poesia.
A poesia explica a vida,
A poesia é a melodia da vida,
E sendo vida, a poesia é a expressão da alma no mundo.
Logo, em essência, todos somos poetas da alma.
Penso então, que a questão não é o tempo, posto que até deste, a alma já foi poeta!

9 de novembro de 2010

Ânsia

Queria ter contigo um dia inteiro.
Queria saber do teu cheiro pela manhã.
Queria saber a quantas anda teu desejo quando de ti despertas.
Queria saber o que tem entre teu sono e teu desejo.

Estaria ali contigo, logo pela manhã.
Estaria alerta em olfato para sentir teu cheiro ainda quente.
Estaria resoluta para teu desejo desperto.
Estaria em destreza, entre uma coisa e outra para te conter.

Seria contigo, o clarim da tua alvorada.
Seria contigo, o composto dos cheiros.
Seria em ti e para ti, a cobiça e o querer.
Seria o que está entre teu sono e teu desejo – teu sonho!

8 de novembro de 2010

Breve

"Frequentemente me deparo com situações onde sou obrigada a olhar no espelho, e o que me fita, é sempre um estranho a mim".

6 de novembro de 2010

Do meu senhor

Eu seria entregue ao teu mais bel prazer se de mim fostes senhor.
Já cedinho pela manhã curvaria-se a ti como teu desjejum, sem pudores.
Aprenderia sobre teus desejos, e a eles seria amável subordinada.
Gentilmente acolheria teu gozo - fingindo-lhe obediência.
Não lutaria contra teu desejo de dominação, mas dele seria objeto.
A tudo, e a todo momento estaria para ti, assim como o alimento para a fome.
Porém, de modo rebelde, te prenderia dentro de mim, desafiaria teu poder ajustando-te as minhas entranhas – de onde sou senhora.
Mantendo-me assim, para não perder o hábito, fiel aos meus instintos insubordinados.
Um sobre o outro apenas, entrelaçados, somente as voltas com as tarefas cotidianas urgentes.

4 de novembro de 2010

Dúvidas

Prostro-me diante as minhas dúvidas com tamanha fé e devoção tal qual o bom fiel se lança  aos pés do santo, a espera de uma revelação desta sagrada dúvida às minhas certezas profanas e vis.

3 de novembro de 2010

Poema-Morte

A morte chega cedo. É o prefácio do livro do poeta.
Segue também nos rodapés e entrelinhas.
Sempre estive as voltas com a morte, ela ceia comigo há tempos.
Morte amiga, antiga, viva. Livro velho de cabeceira.
Creio que a morte é tão vida quanto a vida.
Sei disso porque vivo e morro todos os dias, na mesmíssima intensidade.

No fundo, nem sei se tal morte existe, assim, tal qual me dizem que existe,
ou se é apenas irmã da vida, seu verso seguinte.
Saber da morte é tão doloroso quanto buscar o próximo verso de um poema triste.
A diferença é que há poemas sem fim.
Para a vida não há fim, por isso o verso triste da morte,
que é a própria melodia da vida, costurada pelo artífice do mundo,
da qual sabemos apenas alguns versos sem rima.
O livro da morte-vida é cerrado para os últimos capítulos.
Daí a dúvida estar para a morte, assim como para a vida, a certeza dos versos já lidos.
E tendo lido (e escrito) alguns versos do meu velho livro de cabeceira, creio que a dúvida é a morte – com seus versos tão vivos e incertos quanto o que a antecede.

2 de novembro de 2010