25 de outubro de 2010

A poética do Estranhamento

O que me encanta é estranho a mim.
Cara-a-cara esse encantamento me é estranho
E por ser tão estranho e encantado
E também por não conhecê-lo muito bem
E por querê-lo tanto
Afasto-me.

Torno-me estranha ao estranho que me encanta
Num gesto de estranhamento do que é meu, daquilo que quero
Mas não sei bem como.
Mais fácil me afastar do que é estranho e não domino.
Mesmo que esse encantamento pelo estranho me persiga
Não posso decifrá-lo porque não o vejo — ele tem brumas que o envolvem.

E eu, envolta também em tantas brumas, não me permito ser vista.
Talvez o estranhamento seja maior que o encantamento
Porque os olhos não podem ver aquilo que encanta
E não vendo, não há toque, não há encantamento
Apenas o estranhamento.

Resta o recolhimento às conchas.

E que algum dia, a preciosidade do que ali se forma
Possa ser colhida,
Sem dor, sem brumas, sem máscaras, sem estranhamento.
E que revele, aí sim, o encantamento do encontro das almas.

2 comentários:

Ricardo Steil disse...

O que se revela na poesia da autora,não é encantamento do encontro das almas, mas, o encantamento com o pulsar do seu coração transformado em versos a cada lida. Sandra a cada trabalho, um novo degrau na tua bela trajetória. Aguardo o livro.

Teacher's Pet disse...

Achei maravilhoso. Adoro quando conseguimos colocar em palavras as sensações misturadas. Às vezes elas parecem uma batida de frutas na qual a gente não consegue distinguir bem o sabor de cada uma... Mas sempre há um gosto mais pungente que se sobressai. Particularmente, amo a sensação do estranhamento porque ela geralmente me anuncia alguma coisa nova e divertida - O sentir tudo junto acaba fazendo alguma coisa se mover, no meu caso. É o bicho que briga na minha barriga, ou meus demônios fazendo festa.
*** Postando o comment que já te mandei por email hehe. Bjos