27 de outubro de 2010

O Sol que agora habita em mim


            Havia algo de estranho naquele dia. Estava quente por causa do grande girassol do mundo. Dia daqueles que faz arder à pele, a íris, a alma. Curioso que a brisa era gelada. E era a brisa que imperativa, ditava a temperatura do corpo — não o sol que girava. A pele ardia e o corpo gelava, tremia. O dia amanhecera como que envolto em nuvens e, apenas uma pequena parte estava alerta: alerta para as coisas práticas a se fazer, como tomar banho e comer o desjejum.
            A alma parecia estar ausente, distante, talvez por isso o corpo gelado, porque é preciso sentir a comunhão sagrada da alma nele. A viagem era longa, era preciso o desapego do que ficaria para trás. Sabia que era uma viagem sem retorno. Voltaria sim para sua vida, porém, voltaria com menos. Voltaria despida do que a assombrara, mais leve, embora isso lhe causasse medo, pois, não sabia da leveza de ser. Havia o hábito de carregar consigo malas pesadas. Com sua pele ardida e seu corpo gelado seguiu viagem, levando além das malas, outras pessoas, que assim como sua alma pareciam-lhe distantes.
           No caminho, ouvira ao longe o eco das vozes dos que a acompanhavam, vozes tardias, línguas estranhas, risos tristes. Por não estar ali, inteira, não sabia ao certo o que a cercara, o que estava a sua volta. Tudo parecia transcorrer ‘apesar’ dela. A dor apertada em seu peito que sentira durante esse dia era comum daqueles que se distanciam do seu lugar (passado), dos que deixam para trás o encantamento de uma vida que não mais lhe pertence, não mais faz sentido. Mas, a dor maior era porque o que já foi, ia saindo aos poucos, não lhe fora arrancado de uma vez, mais sim, pedaço a pedaço. Tornando a dor constante e permanente.
           O caminho que fazia era o mesmo de sempre. As curvas tinham a mesma envergadura. Os buracos nas estradas ainda estavam lá. As mesmas montanhas encobertas pelas nuvens, o sol por entre elas, as cores, o cinza, a elevação. Percorrera durante anos esse mesmo caminho, porém, nesse dia, sabia que via-o pela primeira vez porque ela, apesar da dor, estava inteira.
            O que aconteceu lá, em seu destino, pouco se sabe, tudo aconteceu num instante em que se dá um piscar de olhos.
            Tão breve que não caberia no menor verso.
            O que se sabe é que voltou sem malas, com o corpo e a alma aquecidos, e com o sol dentro de si.

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