31 de outubro de 2010

O peso, a folha e o vento

    Nunca entendi a melodia do vento, até que um dia numa forte ventania, uma voz ao vento me confidencia:
“Cansei de responder ao mundo que me cerca e me cercando me poda, me limita, me dita, me diz, me cala, me fere, me assopra, minha carga é pesada demais, já que trago comigo as minhas exigências que são as exigências do mundo que livremente comprei e paguei com meu  próprio sangue e minhas próprias lágrimas, tenho a delicadeza e a leveza de uma folha e para ficar firme no mundo preciso de peso, daí as cargas constantes e as malas cheias que carrego comigo dia e noite, me vejo constantemente precisando de algo daqui que me ancore, mas me livro fácil delas e lá denovo estou eu a carregar, sou leve demais, preciso de peso, posso carregar peso alheio, e faço isso especialmente bem, levemente me ferem, levemente me chegam as coisas, levemente vão embora, deixando seu peso em mim, tenho força tamanha que mesmo sabendo de minha bagagem grande, creio que sempre posso mais, não há estações, sigo sempre em frente, sem paradas, apenas a juntar, preciso do peso, leve folha ainda não sei ser, quero alinhavar-me em qualquer coisa, pertencer, não sei da leveza, não sei para onde os ventos me levariam assim tão leve, criança que sou, não sei dos caminhos dos ventos, não sei das suas paradas, não sei de minha morada, tenho uma voz imensa que me diz das maravilhas da minha leveza, mas não tenho ouvidos, sei dela por outros, estes que me deixam seus pesos e eu de bom grado os recebo, estes não me conhecem, ninguém me vê, ninguém sabe de mim mesmo quando me tocam, pois o que tocam não sou eu, o que tocam é meu peso, o que me segura, não posso ser tocada sem meu peso, voaria longe, sei que é preciso saber dos caminhos do vento, me deixar levar, leve que sou, sei no fundo que isso de ser continente é meu medo, meu receio de voar longe, mas ainda a minha leveza me parece pesada demais, porque não tenho pares, não sei de outras folhas, talvez sejam invisíveis assim como eu por causa de tanto peso, preciso saber das estações, da entrega, dos destinatários, meu caminho tem um fim, pois não quero mais dar as costas a dança do vento que de mim é caminho, cansei de responder ao mundo que me cerca, cansei de ser tão leve e carregar tanto, entrego ao mundo o que lhe pertence e fico com minha leveza solitária, folha leve livre e entregue que hei de ser, sem as amarras que prendem o que em mim é tão sutilmente leve, inteiro e com asas”. 
    O que segue, após a ventania, é a certeza de que dou para o vento canção e sua dança melodia.

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