8 de setembro de 2010

sobre as ervas

caía a noite
a brisa fria que gelava os corpos
a sombria escuridão da inconsciência
a lua vigilante flagrada pela coruja que escapa à vista
por causa da doença do pequeno adoentado
a mais velha de olhos esfumaçados de tanto ver coisa desse mundo
pega em suas mãos uma vela já usada de chama pequena
e põe-se a andar rumo aos fundos da casa grande onde fica o quintal de ervas
a filha do meio resmungando segue os rastros da pequena chama
não era a chama que guiava a velha
era o cheiro das ervas
a mística não se conta
é preciso calar-se ao colher as ervas pois estão adormecidas
a erva se permite colher, se mostra na escuridão
pois como é sabido há o tempo de colher
para a velha seu campo de domínio é o domínio da natureza esquecida
para a filha
almas parecidas, interligadas, mas separadas pelo amargor dos corações
à sombra da velha mãe-bruxa
rende-se apenas por um segundo quando as mãos se tocam no momento da colheita
e é quando se vê o quanto as amarras do coração amargurado
são feridas profundas, cálidas
não há preces que se possam fazer
apenas colher vez em quando junto as ervas esses pequenos momentos de ternura esquecidos ou nunca vividos
não posso lançar luz ao que vejo, observadora de mim mesma
ali frente a três gerações
apenas posso lançar uma luz tênue sobre minha própria escuridão
para que não me perca junto as sombras do passado
- fico com a leveza das ervas -
que iluminam o caminho da cura de minha alma febril.