26 de setembro de 2010

aos eruditos

não quero sentar-me à mesa com os eruditos
do que ali é posto já hei farta

minha fome é da poesia sem métrica dos becos
do discurso sem lógica dos bêbados
do lirismo pungente dos mendigos
do amor vil e livre das alcovas
do prazer blasfemo do sacrilégio
da convulsão do amor sombrio dos desconhecidos

minha fome é de vida sem poeira
quero me fartar daquilo que não importa
daquilo que leva a perdição
quero ser o movimento daquilo que o olhar tétrico admira
estou faminta de alimento que não é posto nessa mesa sepulcro

quero o fedor de um corpo cansado
e não o frescor de quem está a sombra
quero o cheiro do gozo e do suor dos corpos
e não das fragrâncias florais mortas
quero encher o copo de vinho barato
que atordoa a mente, desperta os demônios

prefiro à vida aos eruditos
prefiro à fome a este alimento veneno
prefiro a dor intensa da morte violenta
do que a vida morna dos que sentam a mesa
estátuas pensantes do alheio, polidas, ocas
eternas em sua forma única, tediosa
surdos que ouvem tão somente seu próprio eco

quero o que não serve a razão
o que não cabe a erudição
posto que é vida
à erudição não cabe a vida
à erudição cabem os restos, o escarro

perguntai ao que agoniza nas ruas
nele está toda a erudição da vida
e ele não está à mesa

20 de setembro de 2010

sangue índio

filha das terras de lá
dos homens primitivos de outrora
homens de espírito livre
que a floresta ao se abrir e secar
fez perecer, se perder
dilacero meu corpo e dele vejo sair
sangue desse povo
sangue índio
sangue que brota do meu coração valente
percorre minhas veias e me traz a poesia do mato
tenho em mim sangue de canção
mesmo estranha em minha própria terra
meu coração ainda canta, dança e faz oferendas

a fogueira que me aquece hoje vem do brio desse sangue
o ardor que sinto vem da sangria constante
errante, me mantenho distante desse mundo prudente

sou guerreira de exaurido coração
do humano quero apenas o que não me cerca
e quando for terra novamente
não chorarei a morte, pois não sei morrer
meu sangue é vivo, carmim
e em mim, é laço eterno, secular

14 de setembro de 2010

a liberdade de uma tempestade plena

intensidade é um termo que me define bem
tempestade também
pra mim é sempre, nunca, tudo, nada
a dor é intensa
o amor é imenso
o desejo é urgente
tudo arde, tudo tarde
ora avanço, ora retrocedo
até os ventos fracos são intensamente fracos
não que eu seja uma pessoa efusiva
tenho a sorte que algumas tempestades acontecem quando muitos dormem
desconheço a coerência do raso
tudo acontece num movimento intempestivo, súbito e profundo
e essa força tanta
que me faz originar, falecer, queimar e sangrar
corre calma e licenciosa pelas minhas veias
permanentemente

12 de setembro de 2010

a viela-córrego

o santuário era grandioso
expressão humana da manifestação do ato divino
daqueles que te fazem sentir-se bem pequenininho
o sentimento, ah! o sentimento que me guiou até aquele santuário
também era grandioso, divino, de igual tamanho
logo, eu não era tão pequena
meus ouvidos sentiam a lírica da orquestra
mas meus olhos não acompanhavam
não via a orquestra
me aproximo do altar em busca da lírica
que agora está na viela de pedra lousa ao lado do santuário
é uma viela-córrego
não vejo sua fonte, apenas seu terçar
as águas desenham ondas sinuosas e cada redemoinho
parece conter uma vida, um universo singular
quero sentir em mim essa vida
avanço em direção a viela-córrego
deságuam em mim as águas
agora sou a fonte e o leito
...desperto!

o moribundo-sombra

dia desses, num determinado lugar
pus-me a observar os olhares das pessoas enfermas
dia frio, cheio de tormentas
(talvez não fosse o dia frio nem de tormentas mas o que eu observava)
as enfermidades eram distintas, imprecisas
mas os olhares
tenebrosos, distantes, lacrimejantes, cerrados, fugidios
tinham certa semelhança
o olhar que denuncia um corpo que agoniza
um corpo que anuncia que a alma quer partir
parece chegado o tempo da alma padecer
ou da alma ser ouvida
porque a enfermidade fala da condição da alma no mundo

ali, naquele lugar
num momento preciso
como num movimento ensaiado
todos os olhares se voltam para uma figura esquálida, arqueada, minguada
que adentra o espaço
tem os punhos e os pés algemados
também era um enfermo
também sentia dor
também buscava entendimento para a condição de sua alma no mundo
mas trazia consigo explicitamente seu delito
(esse foi o agravo, de ser explícito, pois apenas os delitos ocultos são aceitáveis)

seu olhar não podia ser visto
estava cabisbaixo
talvez por já ter entendimento sobre os olhares de censura que
encontrariam os seus
seus olhos agora eram os olhos da figura de lei que o acompanhava

naquele ambiente os olhares se transformaram
ao fitar aquela figura enferma e criminosa
os sussuros diziam de um certo conforto e desconforto
conforto porque a alma daquele moribundo certamente estava em pior situação
tinha, além de uma enfermidade, um crime
e que bênção e alívio saber que existem criaturas
em condições piores que as nossas
desconforto causado pelo medo do sombrio daquela figura
pelo sombrio individual espelhado naquele moribundo

o moribundo é levado ao guerreiro-heróico na figura do médico

agora, os sussuros são de alívio, os olhares se acendem
há uma aura mais leve no ar
que doce a ilusão desse segundo
onde se pode tentar enganar a alma
onde se pode tentar fugir da sombra

o que não se sabe é que ela só foi ali, numa breve consulta médica
e já retorna
talvez em vias de cura para continuar nos acompanhando
vida afora, vida adentro.

8 de setembro de 2010

sobre as ervas

caía a noite
a brisa fria que gelava os corpos
a sombria escuridão da inconsciência
a lua vigilante flagrada pela coruja que escapa à vista
por causa da doença do pequeno adoentado
a mais velha de olhos esfumaçados de tanto ver coisa desse mundo
pega em suas mãos uma vela já usada de chama pequena
e põe-se a andar rumo aos fundos da casa grande onde fica o quintal de ervas
a filha do meio resmungando segue os rastros da pequena chama
não era a chama que guiava a velha
era o cheiro das ervas
a mística não se conta
é preciso calar-se ao colher as ervas pois estão adormecidas
a erva se permite colher, se mostra na escuridão
pois como é sabido há o tempo de colher
para a velha seu campo de domínio é o domínio da natureza esquecida
para a filha
almas parecidas, interligadas, mas separadas pelo amargor dos corações
à sombra da velha mãe-bruxa
rende-se apenas por um segundo quando as mãos se tocam no momento da colheita
e é quando se vê o quanto as amarras do coração amargurado
são feridas profundas, cálidas
não há preces que se possam fazer
apenas colher vez em quando junto as ervas esses pequenos momentos de ternura esquecidos ou nunca vividos
não posso lançar luz ao que vejo, observadora de mim mesma
ali frente a três gerações
apenas posso lançar uma luz tênue sobre minha própria escuridão
para que não me perca junto as sombras do passado
- fico com a leveza das ervas -
que iluminam o caminho da cura de minha alma febril.

do virtual

o olhar intenso, curioso
o olhar que desnuda, que deseja
deve ser seguido pelo movimento das mãos rumo ao objeto desejante

mas quando o objeto desejante está fora do alcançe
das mãos agora tão desejantes pelo toque quanto os olhos?

seria apenas a contemplação da imagem, reconfortante a um coração ávido?
é possível manter o desejo do olhar pela imagem sem o toque, sem a intimidade?

talvez seja a palavra o elemento de ligação entre o olho, a imagem e o desejo
talvez a palavra seja o elo que por um breve e curto espaço de tempo possa manter acesso
o desejo da ânsia do encontro: olhar – imagem – corpo – alma

2 de setembro de 2010

do meu disfarce

isso de ser assim
na medida e contida
é meu disfarce no mundo
no fundo
sou brejeira
descalça, sem alça
'bicho do mato’
ave de rapina
serpente rasteira
sorrateira
minhas raízes estão em outro lugar
eu sou de outro lugar
sou da terra
do mato
da natureza viva
primitiva
canto com os pássaros
levo flores aos que aqui estão
faço banquetes esfuziantes
brindo aos deuses
me divirto sendo travessa
e estou firme na certeza
que na próxima estação
vou despir-me de meu disfarce
quero deixar-me assim
como vim
sem vestes que prendem meu corpo e minh’alma
conseguirás me ver?

1 de setembro de 2010

pergunte ao sapo

noite alta lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa

(essa é do Paulo Leminski, e tinha de estar por aqui...)