28 de agosto de 2010

infância (do que mais me lembro)

tempo longínquo e bucólico
de imagens povoadas de árvores, bosques, animais domésticos, selvagens, rios, riachos, de rituais de plantio e de colheira, abate de animais
os excentricos rituais familiares....
luz e sombra
família excessiva, dramática, eufórica, ardilosa, amorosa, frenética, misteriosa, colorida, seca... umida e sem medida
tudo imenso, desde a casa, a mesa, o rancho, o número de pessoas, a comida, o afeto
a ‘tata’, que me cuidava e que todos juravam de pés juntos que era bruxa
dizia-se amiúde que quando ela dormia em casa, manhã seguinte o cabelo dos cavalos e o meu sempre apareciam com nós que ninguém conseguia desfazer
dela, nada se sabia
nem sua idade, procedência, sobrenome, não tinha rg, portanto não existia ‘oficialmente’
era muito velha e tinha a face idêntica ao chão do sertão
andava descalça e percorria grandes distâncias assim, sem nada nos pés
alimento para minha imaginação
na casa grande de meus avós,
as paredes tinham vida
eram cheias de quadros com imagens de anjos e santos,
o imenso relógio de carvalho que insistia em se fazer ouvir com suas assombrosas badaladas a meia noite, sempre e sempre
nas estantes as esculturas de santos dividiam espaço com muitas bebidas e conservas apetitosas
ao lado da casa grande, um salão de festas
festas onde criança não podia participar
(apenas espiar)
espiando, via o movimento de chegada e saída de pessoas
os músicos, a alegria, as danças
o encontro de homens e mulheres
a proximidade
cenário que despertava em mim algo que não entendia
mas queria entender, ou sentir, não sabia ao certo...
recordo ainda, das noites que passava na janela, a espreita
noites na penumbra
onde me pendurava com meus brinquedos de criança querendo envelhecer um pouquinho
que fosse só para ter um brinquedo novo de adulto...

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