29 de agosto de 2010

do hábito de mentir

e que não vire hábito isso de ser sincero
fico magoada quando não me contas uma mentirinha apenas
acredites
volto a confiar em ti depois de uma e até duas mentirinhas
mentes sem remorso
perdoo-te antecipadamente
só pela graça das coisas não serem sempre ‘do modo certo’
mas disfarças bem teu receio
odeio mentiras mal contadas!

achei minhas asas!

achei minhas asas e agora não deixo mais de voar
encontrei elas lá
escondidinhas
cheias de poeira, coitadinhas
meio abarrotadas embaixo de tanto ontem

novamente o desejo

descobri que havia engavetado meu desejo porque ele
travesso e imortal
desandou a revirar as gavetas de meu corpo com tal intensidade
que já não cabia mais dentro de mim
irrompeu em chamas como a fé dos desesperados
libertei-o então, dando-o asas
assim ele pode ser sair todas as noites
mas com hora marcada para voltar!

poeminha piégas da dúvida romântica

se cada um sabe de si
e Deus sabe de todos (e é por todos)
porque perguntas de nós à mim
pobre de mim que mal sei de mim
quiçá de ti ou de nós
te digo que não precisas querer ir longe para tal resposta
te percebo
creio que teus devaneios sobre ti e sobre mim
tem resposta fácil, singela, banal até
não te machuca minha ausência?
não tens fome de mim?
alma minha
não partas tão cedo mesmo antes de chegar
rogue a Deus que a resposta somente se apresente quando
estivermos eu e tu
não tão distantes assim

chamego

te digo com certeza
e convém que se repita a palavra certeza para que não haja dúvidas
da necessidade do chamego
mesmo que seja a intenção de um chamego, um gesto tímido em direção ao outro
(porque de início tudo são apenas intenções)
o chamego movimenta e acende o desejo
digo do chamego bem feito, claro
daquele toque lascivo,
da chama
do desassossego de um sussuro
do desequilíbrio de um toque
a sensação de um bom chamego pode levar a um frenesi
até a um estado febril
se não for seguido de uma entrega
e talvez outra
e outra
e até....
porque a entrega quando precedida de um bom chamego sempre segue adiante...

28 de agosto de 2010

do cansaço

quer por favor surpreender-me?
cansei disso de ser morno
do cansaço depois de um dia de trabalho
do cansaço depois de tantos anos de vida
do cansaço depois de não sei o quê
quero o susto, a surpresa
o frio na barriga
o desespero
o espanto
o desejo
a novidade
quero uma invenção a cada dia
e se não podes me acompanhar nisso
então, despeço-me de ti neste instante
ficas com teu cansaço, com teu peso, com tuas medidas
teu olhar duro que me interroga
deixo-te para trás
vou em busca de algo expressivo, depravado, desvairado
louca?
não, apenas não sinto cansaço!

infância (do que mais me lembro)

tempo longínquo e bucólico
de imagens povoadas de árvores, bosques, animais domésticos, selvagens, rios, riachos, de rituais de plantio e de colheira, abate de animais
os excentricos rituais familiares....
luz e sombra
família excessiva, dramática, eufórica, ardilosa, amorosa, frenética, misteriosa, colorida, seca... umida e sem medida
tudo imenso, desde a casa, a mesa, o rancho, o número de pessoas, a comida, o afeto
a ‘tata’, que me cuidava e que todos juravam de pés juntos que era bruxa
dizia-se amiúde que quando ela dormia em casa, manhã seguinte o cabelo dos cavalos e o meu sempre apareciam com nós que ninguém conseguia desfazer
dela, nada se sabia
nem sua idade, procedência, sobrenome, não tinha rg, portanto não existia ‘oficialmente’
era muito velha e tinha a face idêntica ao chão do sertão
andava descalça e percorria grandes distâncias assim, sem nada nos pés
alimento para minha imaginação
na casa grande de meus avós,
as paredes tinham vida
eram cheias de quadros com imagens de anjos e santos,
o imenso relógio de carvalho que insistia em se fazer ouvir com suas assombrosas badaladas a meia noite, sempre e sempre
nas estantes as esculturas de santos dividiam espaço com muitas bebidas e conservas apetitosas
ao lado da casa grande, um salão de festas
festas onde criança não podia participar
(apenas espiar)
espiando, via o movimento de chegada e saída de pessoas
os músicos, a alegria, as danças
o encontro de homens e mulheres
a proximidade
cenário que despertava em mim algo que não entendia
mas queria entender, ou sentir, não sabia ao certo...
recordo ainda, das noites que passava na janela, a espreita
noites na penumbra
onde me pendurava com meus brinquedos de criança querendo envelhecer um pouquinho
que fosse só para ter um brinquedo novo de adulto...

madrugada dessas...

são três horas da madrugada de um dia qualquer
e essa lua imensa que adentra meu quarto
através da janela entreaberta
irrompendo meu sono inquieto
(tenho pra mim ser ela a causadora do meu sono inquieto)
não pede licença
não se anuncia
não bate à porta
simplesmente está ali
me compele a olhá-la de perto
pede atenção
é legítimo seu apelo
quer mostrar-me algo dentro de mim:
a semente que germina, a flor que nasce frágil,
o ciclo que se renova
a fertilidade, o desejo, o ardor da vida
a intimidade
os caminhos da entrega...
....de certo que não é um dia qualquer...
.... de certo que já não sou a mesma, mas cada vez mais EU mesma!

da forma

não tenho opinião formada sobre nada
minha opinião é sem forma mesmo
hoje penso assim, sou assim
amanha assado
tudo tem a forma fulgaz de um instante, um momento
do meu
e apenas do meu jeito vou formando meu jeito sem jeito de ver (e de ser) o mundo
mas estou convencida de que o importante vai além da forma
além dos olhos
mas não além da alma...

pequeno manual de instruções

mas pra mim é assim...
a imagem precisa ser seguida da palavra....
é sempre pela palavra...
não a palavra fria, óbvia, monótona...
o secreto da palavra...
não quero o rápido, o explícito, o ‘pra já’...
quero a palavra que desnuda, atravessa, penetra
mas que não é escancarada
a palavra que gera a dúvida, o meio-riso, o quase, o talvez
a palavra que vem nem sei de onde e me arrebata, me toma, me possui
a palavra é a senha, e só ela precede o toque
enfim, que pra mim... tudo é a palavra!
me fere, me arde e me assopra...
nada...
tudo...
e o interlocutor?
... tens acima então, o pequeno manual de instruções de minh’alma (?)

da libertação...

na alvorada de hoje um passarinho me contou ao pé do ouvido que uma bela moça que outrora vivia aprisionada (ela mesma era seu carcereiro)...
libertou-se e fugiu (!), escafedeu-se...
ninguém sabe, ninguém viu...
de certo, apenas a certeza de que já não é mais a mesma...
e que vaga, silenciosamente, levemente e felizmente em busca de si mesma....

16 de agosto de 2010

...

a foto na parede diz de um redemoinho de sentimentos, de ausencia de razão, de sentido,
falta oriente, orientação
falta a proximidade que aquece, que conecta, que me diz quem eu sou
me sinto nua, muda, sem pulso... em um labirinto sem o fio de ariadne
preciso ouvir um coração pulsante que seja meu imã para o retorno a vida
a quietude do escuro e do silêncio não trazem consigo a paz
o pulsar da vida parece distante, estendo meus braços em sua direção mas não alcanço
meus sonhos desenham uma magia lírica de tempos atrás, tempos longinquos
é preciso limpar as janelas para ver a vida lá fora...
e preciso abrir o coração para sentir a vida aqui dentro...

segunda...

engana-se quem pensa que o cheiro vai embora no banho seguinte..
o cheiro penetra, invade, atravessa...
se mistura
permanece...
e depois, fica a essência nossa
do eu e do tú
eternizada no efêmero e embriagante odor
do efêmero e embriagante encontro...

de mim....

perdi meu rg, cpf, carteira de trabalho
chave de casa, senha do banco
o rumo
a direção
o sentido
me encontro perdida no caminho seguro, na encruzilhada sombria, fria e solitária
para onde olho, norte ou sul
nada tem forma
saio da casca, da concha, do vazio
do antes 'certo' para o duvidoso
dói
o que trago comigo é uma vaga idéia
do que mesmo?
desejo intenso e desesperado de 'ser'
e do encontro inevitável comigo mesma