23 de dezembro de 2010

20 de dezembro de 2010

19 de dezembro de 2010

P.S.

Não sou avessa a todos os hábitos.
Alguns até me soam compreensíveis e necessários,
Como o hábito de cometer-te!

12 de dezembro de 2010

Ao leste o sol, ao sul a lua

Encontraram-se às avessas,
No meio do caminho torto que ambos voavam.
Ensinou a ela a desaprender-se.
Em dois anos, muitos anos se passaram.
 A inércia deu cabo a si mesma,
E quando estando no mesmo chão, não se viram.
O delírio atava-os,
Viam apenas alguma coisa que a pele sentia.
Ouviam palavras um do outro em idioma próprio.
A razão nunca soube eles,
O estranhamento já era conhecido,
A distância era próxima e dormia junto, invisível.
Não viam as coisas por meios razoáveis,
E desafiavam um ao outro,
A serem olhados pelo lado de dentro,
De olhos fechados.

Conservatório (I)

Havia uma expectativa.
Dentre tantas, aquela era a mais proeminente no momento.
A expectativa de correspondência, digo correspondência a algo que se espera de outro, não do tempo, nem de Deus, de um outro ser humano, seja ele, filho, amante, empregado, amigo. Qualquer ser vivente, porque até mesmo de animais se espera determinado temperamento. Dentro do sistema.

Alguém deliberou assim:
- Considerando a razão e a lógica dos que vieram antes, firmados em suas raízes sólidas, e que já sabendo dos caminhos a serem trilhados, e suas implicações, tornaram público os princípios fundamentais de um sistema único qualquer, onde:
 “Não há surpresas, não há espanto, não há erros, se o agir estiver dentro das regras do sistema. Apenas o sistema. Entre no sistema, permaneça no sistema e terás a normalidade, serás visto como um homem de bem, como alguém de valor e com objetivos, guiarás tua vida pelos caminhos que outros, antes de ti já se guiaram, nele já existe pronto o que deverás fazer por toda sua vida, da infância à velhice. Já temos aqui, além do que deverás fazer, e em que tempo, como deves te comportar, reagir, o que deves falar, com quem deves te relacionar, o que evitar, o que mostrar, o que esconder, as palavras certas, os gestos comedidos que deves ter em público, a quem deves agradar, e com que vestes não chamarás a atenção para ti desnecessariamente. Não há lugar para o novo, há lugar para o que já foi, para o seguro, apenas para o sistema. Aqui dentro serás cuidado, a obrigatoriedade de seguir as regras, lhe trará amor, carinho, amigos e nunca te sentirás sozinho, porque seguindo as regras, terás pares, estarás incluído. Esqueça, ou não procure saber quem tu és, além de difícil, é ilusório, já que terás de oprimir parte de ti, em função do sistema. Busque superar expectativas, não as suas, as dos outros, surpreenda, corresponda, seja o que desejam de ti, dessa forma criarás laços de dependência. Inteligência é depender e ser dependente, existir para alguém e por alguém, a solidão trás a dor e só é regulamentada quando gerada dentro do sistema, para algum fim específico do próprio sistema. Não demonstre fraqueza, seja firme, desenvolva competências, dê seu sangue, vista a camisa, se molde, permita, diga sim. Não chore em público, a não ser para demonstrar compadecimento com os ‘menos favorecidos’. Siga as regras, ande com a multidão, não questione, adquira, sorria, seja cópia autêntica, não sonhe. Em troca terás paz, não destoarás, não serás apedrejado, ganharás muitas felicitações no natal e quem sabe um título honorário no final da vida”.

A não observância das normas acima dispostas constitui falta grave, passível de capitulação nos dispositivos do sistema, referentes ao exercício da vida dentro da normalidade.

Revogam-se as disposições em contrário.

5 de dezembro de 2010

De um querer maior

Enquanto tempestade,
Impossível à entrega ao amor sereno.
...
Ainda há ânsia (fome) desconhecida na alma,
Que não se contenta, nem se acalma,
Apenas com a saciedade do corpo.

3 de dezembro de 2010

Aqui

O convite que fiz ontem,
Não é extensivo à outros, apenas a ti.
Venha só,
Pois meu corpo também é único.

1 de dezembro de 2010

Para tudo que é tão regrado

"Por favor meu senhor, não me peça seriedade, não me impeça o riso, não me diga que a ironia é corrosiva às relações, não me diga o caminho a seguir, pois estou indo em direção contrária, não me diga coisas e coisas sobre mim, pois de mim pouco sei, vou indo longe, distante de ti e a cada grito seu, mais os ventos contrários sopram em meus ouvidos, impedindo que ouça tuas palavras hipócritas, pensadas, já lidas, já ditas, já repetidas, não me fale de seu modelo, pois o mesmo não me cabe, não me diga a que veio, não tente me entender, dialogue comigo na minha língua, aprenda meu idioma, leia meus lábios, meu corpo, minhas palavras, mesmo que de longe, não me peça sanidade, coerência, postura, desconheço regras desse seu sistema de vida, já nasci torta, de esquerda, do contrário, aprendi sobre teu mundo em pouco tempo, vou além, não sei ser igual a ti, não posso, é demasiado pesado fingir fraternidade a algo tão morno, não me olhe com olhos penosos, não me queira em parte, pois só sei ser inteira, não me peça a meia entrega, não queira de mim um beijo no rosto,um aperto de mão, um compromisso com uma folha timbrada, um anel brilhante no dedo esquerdo, luta diária, fidelidade a mesmice, vestimentas em tom pastel e concordância com idéias póstumas, especialmente não me peça para ser eu mesma sempre, não me peça amanhã que eu pense como hoje, me desconheça vez em quando, me procure, me ache onde eu ainda não te encontrei, não me peça lugar comum, não me peça para ser solidária a escravidão de uma multidão, não quero recapitular o hábito, não me cerque, venha ter comigo em minhas diversas faces e em minhas diversas fases, há doçura em minhas ironias, há beleza no meu riso descabido, há presença na minha ausência junto a ti, mas não há espaço para tudo sempre assim, há uma eternidade sublime no meu desejo de ir além disso tudo que vemos, que temos e que é apenas parte, sou urgente, inconseqüente, duvidosa, tenho apenas as noites, o sonho e o delírio que não podes ver,  porque tens olhos turvos para mim, para minhas cores, para meu querer tão imenso de vida que não vejo em ti, não do jeito que entendo essa vida, e então meu senhor, por favor, não me peça seriedade, não me impeça o riso e não me apresente a morte".

30 de novembro de 2010

Cabala

E as raízes rasgavam a terra e sobrepujavam a casa,
em busca de abraçar o céu.
Porque toda raiz tende a voltar de onde é nascida.

27 de novembro de 2010

23 de novembro de 2010

Causa Vitae

Morreram juntos – ela e seus pensamentos.
E depois da morte,
Acordou sozinha.
Aliviada.

16 de novembro de 2010

Tempo

Queria saber do tempo.
Deste tempo que passa por mim.
Deste tempo que passa apesar de mim.
Tempo fugidio.
Tempo não vivido.
Queria saber do tempo que passa,
mesmo quando cerro minhas mãos para contê-lo.
Queria saber do tempo, apenas daquele que se vai.
Queria saber deste tempo e seu paradeiro.
Queria saber deste tempo, ir com ele e nada mais.



12 de novembro de 2010

A linguagem da alma

Me perguntam: “Como ter tempo para a poesia?”
Eu pergunto: “Como não ter tempo para a poesia?”
Sendo que a poesia é o próprio pulsar da vida.
Em tudo há poesia, no belo, no sujo, no morno, até no tédio há poesia.
A poesia explica a vida,
A poesia é a melodia da vida,
E sendo vida, a poesia é a expressão da alma no mundo.
Logo, em essência, todos somos poetas da alma.
Penso então, que a questão não é o tempo, posto que até deste, a alma já foi poeta!

9 de novembro de 2010

Ânsia

Queria ter contigo um dia inteiro.
Queria saber do teu cheiro pela manhã.
Queria saber a quantas anda teu desejo quando de ti despertas.
Queria saber o que tem entre teu sono e teu desejo.

Estaria ali contigo, logo pela manhã.
Estaria alerta em olfato para sentir teu cheiro ainda quente.
Estaria resoluta para teu desejo desperto.
Estaria em destreza, entre uma coisa e outra para te conter.

Seria contigo, o clarim da tua alvorada.
Seria contigo, o composto dos cheiros.
Seria em ti e para ti, a cobiça e o querer.
Seria o que está entre teu sono e teu desejo – teu sonho!

8 de novembro de 2010

Breve

"Frequentemente me deparo com situações onde sou obrigada a olhar no espelho, e o que me fita, é sempre um estranho a mim".

6 de novembro de 2010

Do meu senhor

Eu seria entregue ao teu mais bel prazer se de mim fostes senhor.
Já cedinho pela manhã curvaria-se a ti como teu desjejum, sem pudores.
Aprenderia sobre teus desejos, e a eles seria amável subordinada.
Gentilmente acolheria teu gozo - fingindo-lhe obediência.
Não lutaria contra teu desejo de dominação, mas dele seria objeto.
A tudo, e a todo momento estaria para ti, assim como o alimento para a fome.
Porém, de modo rebelde, te prenderia dentro de mim, desafiaria teu poder ajustando-te as minhas entranhas – de onde sou senhora.
Mantendo-me assim, para não perder o hábito, fiel aos meus instintos insubordinados.
Um sobre o outro apenas, entrelaçados, somente as voltas com as tarefas cotidianas urgentes.

4 de novembro de 2010

Dúvidas

Prostro-me diante as minhas dúvidas com tamanha fé e devoção tal qual o bom fiel se lança  aos pés do santo, a espera de uma revelação desta sagrada dúvida às minhas certezas profanas e vis.

3 de novembro de 2010

Poema-Morte

A morte chega cedo. É o prefácio do livro do poeta.
Segue também nos rodapés e entrelinhas.
Sempre estive as voltas com a morte, ela ceia comigo há tempos.
Morte amiga, antiga, viva. Livro velho de cabeceira.
Creio que a morte é tão vida quanto a vida.
Sei disso porque vivo e morro todos os dias, na mesmíssima intensidade.

No fundo, nem sei se tal morte existe, assim, tal qual me dizem que existe,
ou se é apenas irmã da vida, seu verso seguinte.
Saber da morte é tão doloroso quanto buscar o próximo verso de um poema triste.
A diferença é que há poemas sem fim.
Para a vida não há fim, por isso o verso triste da morte,
que é a própria melodia da vida, costurada pelo artífice do mundo,
da qual sabemos apenas alguns versos sem rima.
O livro da morte-vida é cerrado para os últimos capítulos.
Daí a dúvida estar para a morte, assim como para a vida, a certeza dos versos já lidos.
E tendo lido (e escrito) alguns versos do meu velho livro de cabeceira, creio que a dúvida é a morte – com seus versos tão vivos e incertos quanto o que a antecede.

2 de novembro de 2010

31 de outubro de 2010

Finda-se outubro

Finda-se outubro.
Que os próximos literários
Trazidos pela primavera
Sejam tão luz e cor
Quanto os três poemas
Que em mim é som: de flor!

O peso, a folha e o vento

    Nunca entendi a melodia do vento, até que um dia numa forte ventania, uma voz ao vento me confidencia:
“Cansei de responder ao mundo que me cerca e me cercando me poda, me limita, me dita, me diz, me cala, me fere, me assopra, minha carga é pesada demais, já que trago comigo as minhas exigências que são as exigências do mundo que livremente comprei e paguei com meu  próprio sangue e minhas próprias lágrimas, tenho a delicadeza e a leveza de uma folha e para ficar firme no mundo preciso de peso, daí as cargas constantes e as malas cheias que carrego comigo dia e noite, me vejo constantemente precisando de algo daqui que me ancore, mas me livro fácil delas e lá denovo estou eu a carregar, sou leve demais, preciso de peso, posso carregar peso alheio, e faço isso especialmente bem, levemente me ferem, levemente me chegam as coisas, levemente vão embora, deixando seu peso em mim, tenho força tamanha que mesmo sabendo de minha bagagem grande, creio que sempre posso mais, não há estações, sigo sempre em frente, sem paradas, apenas a juntar, preciso do peso, leve folha ainda não sei ser, quero alinhavar-me em qualquer coisa, pertencer, não sei da leveza, não sei para onde os ventos me levariam assim tão leve, criança que sou, não sei dos caminhos dos ventos, não sei das suas paradas, não sei de minha morada, tenho uma voz imensa que me diz das maravilhas da minha leveza, mas não tenho ouvidos, sei dela por outros, estes que me deixam seus pesos e eu de bom grado os recebo, estes não me conhecem, ninguém me vê, ninguém sabe de mim mesmo quando me tocam, pois o que tocam não sou eu, o que tocam é meu peso, o que me segura, não posso ser tocada sem meu peso, voaria longe, sei que é preciso saber dos caminhos do vento, me deixar levar, leve que sou, sei no fundo que isso de ser continente é meu medo, meu receio de voar longe, mas ainda a minha leveza me parece pesada demais, porque não tenho pares, não sei de outras folhas, talvez sejam invisíveis assim como eu por causa de tanto peso, preciso saber das estações, da entrega, dos destinatários, meu caminho tem um fim, pois não quero mais dar as costas a dança do vento que de mim é caminho, cansei de responder ao mundo que me cerca, cansei de ser tão leve e carregar tanto, entrego ao mundo o que lhe pertence e fico com minha leveza solitária, folha leve livre e entregue que hei de ser, sem as amarras que prendem o que em mim é tão sutilmente leve, inteiro e com asas”. 
    O que segue, após a ventania, é a certeza de que dou para o vento canção e sua dança melodia.

29 de outubro de 2010

Das minhas letras tão autônomas

Meu sintoma é a palavra.
Meu guia é o que há de mais latente em mim.
Não tenho domínio sobre a escrita,
É um certo mecanismo autônomo
do qual pouco sei, mas que é meu senhor
Que fala de mim - e através de mim
Porque também sou a voz de todos.

28 de outubro de 2010

Pois então - reticências...

“Nenhum homem é uma ilha”, já disse o poeta.
É preciso pertencer, estar junto, comungar.
Para ser, é necessário estar com outros.

Agora, veja o caso do ponto, digo, o ponto final.
O ponto final, ali, encerrado em si mesmo, é a pura solidão,
é a descontinuidade, o corte.
Diria até que o ponto final é a própria morte.
Taxativo, soberano, imperativo, quando surge fecha a porta, encerra o riso.

Pobre ponto, nada sabe do verso do poeta.

Mas, mesmo em sua condição não-humana,
o ponto final também tem seus pares.
Quando um ponto encontra outro ponto e mais outro,
surge à possibilidade da continuidade, a imaginação, a exclamação, a vida, o infinito.

Bendito seja o encontro dos pontos, pois então,
As reticências...
Das quais nas entrelinhas, tão bem supõe o poeta.

27 de outubro de 2010

O Sol que agora habita em mim


            Havia algo de estranho naquele dia. Estava quente por causa do grande girassol do mundo. Dia daqueles que faz arder à pele, a íris, a alma. Curioso que a brisa era gelada. E era a brisa que imperativa, ditava a temperatura do corpo — não o sol que girava. A pele ardia e o corpo gelava, tremia. O dia amanhecera como que envolto em nuvens e, apenas uma pequena parte estava alerta: alerta para as coisas práticas a se fazer, como tomar banho e comer o desjejum.
            A alma parecia estar ausente, distante, talvez por isso o corpo gelado, porque é preciso sentir a comunhão sagrada da alma nele. A viagem era longa, era preciso o desapego do que ficaria para trás. Sabia que era uma viagem sem retorno. Voltaria sim para sua vida, porém, voltaria com menos. Voltaria despida do que a assombrara, mais leve, embora isso lhe causasse medo, pois, não sabia da leveza de ser. Havia o hábito de carregar consigo malas pesadas. Com sua pele ardida e seu corpo gelado seguiu viagem, levando além das malas, outras pessoas, que assim como sua alma pareciam-lhe distantes.
           No caminho, ouvira ao longe o eco das vozes dos que a acompanhavam, vozes tardias, línguas estranhas, risos tristes. Por não estar ali, inteira, não sabia ao certo o que a cercara, o que estava a sua volta. Tudo parecia transcorrer ‘apesar’ dela. A dor apertada em seu peito que sentira durante esse dia era comum daqueles que se distanciam do seu lugar (passado), dos que deixam para trás o encantamento de uma vida que não mais lhe pertence, não mais faz sentido. Mas, a dor maior era porque o que já foi, ia saindo aos poucos, não lhe fora arrancado de uma vez, mais sim, pedaço a pedaço. Tornando a dor constante e permanente.
           O caminho que fazia era o mesmo de sempre. As curvas tinham a mesma envergadura. Os buracos nas estradas ainda estavam lá. As mesmas montanhas encobertas pelas nuvens, o sol por entre elas, as cores, o cinza, a elevação. Percorrera durante anos esse mesmo caminho, porém, nesse dia, sabia que via-o pela primeira vez porque ela, apesar da dor, estava inteira.
            O que aconteceu lá, em seu destino, pouco se sabe, tudo aconteceu num instante em que se dá um piscar de olhos.
            Tão breve que não caberia no menor verso.
            O que se sabe é que voltou sem malas, com o corpo e a alma aquecidos, e com o sol dentro de si.

25 de outubro de 2010

A poética do Estranhamento

O que me encanta é estranho a mim.
Cara-a-cara esse encantamento me é estranho
E por ser tão estranho e encantado
E também por não conhecê-lo muito bem
E por querê-lo tanto
Afasto-me.

Torno-me estranha ao estranho que me encanta
Num gesto de estranhamento do que é meu, daquilo que quero
Mas não sei bem como.
Mais fácil me afastar do que é estranho e não domino.
Mesmo que esse encantamento pelo estranho me persiga
Não posso decifrá-lo porque não o vejo — ele tem brumas que o envolvem.

E eu, envolta também em tantas brumas, não me permito ser vista.
Talvez o estranhamento seja maior que o encantamento
Porque os olhos não podem ver aquilo que encanta
E não vendo, não há toque, não há encantamento
Apenas o estranhamento.

Resta o recolhimento às conchas.

E que algum dia, a preciosidade do que ali se forma
Possa ser colhida,
Sem dor, sem brumas, sem máscaras, sem estranhamento.
E que revele, aí sim, o encantamento do encontro das almas.

e de mim...

O mundo sabe de mim
As coisas a minha volta sabem de mim
Deus todo poderoso há de saber de mim
Por fim, não há problema
Com tantos a saberem de mim
Um dia alguém ou alguma coisa
Há de me contar

18 de outubro de 2010

medo?

Minha coragem não sabe da presença silenciosa do meu medo
Por puro medo, minha coragem ignora o medo -  desconhecidos
Não sabe da solidão dos fortes minha coragem  -  de dentro do seu esconderijo
Sendo a única força a me mover -  ainda que faça apenas sombra ao meu medo
Minha coragem não passa  pois do medo não pode saber

17 de outubro de 2010

(acerca do silêncio)

que não ouças mais vozes que não seja a tua própria!
cala-te para o mundo!
abre teus olhos-ouvidos para tua alma,
da qual pouco sabes a melodia!
...
demasiadamente alto fala meu silêncio
ensurdece-me de tanta oratória
silencio para ouvir-lhe, mas ainda me falta quietude
...
meu silêncio dá voz a minh’alma,
se ergue no mais alto grito
e dela sussurra os mais lindos versos
...
me perturbaria em demasia meu silêncio, se a mim falasse
em outro tom, do que pedi e perdi
enquanto não cerrei meus lábios para ouví-lo

11 de outubro de 2010

do que arde dentro da boca

Desejo tua língua com o mesmíssimo querer que desejo teu sexo
Tua língua para mim também é sexo
Tua língua pra mim é o primeiro passo
Meu querer é de ter-te em língua, sexo e descompasso
Língua sem meias palavras
Língua que guia meus versos
Antes não tivesse conhecido tua língua
Não saberia o segredo do que tens em mim
Não teria a boca seca de querer-te
Sobretudo, não desejaria devorar-te eternamente
Língua que deságua em mim
Língua que me impele a silenciar
mas que nos faz, por ora....

8 de outubro de 2010

fim

toma cá minhas lágrimas,
causar-me risos!
pessoa incomum que fui para ti
quão heterônima
denovo a solidão e o conforto da tua mesmice
a ti dedico minhas lágrimas póstumas
e meu riso insustentável

4 de outubro de 2010

costurando

um dia achei atrás da casa a coroa de Cristo que brotava da terra, mistério, mantive segredo, falo outra língua. um dia achei um pedaço de árvore em formato de bife, corri de um lagarto e quando voltei já não era mais, fome. fui mãe aos 5 anos de uma boneca azul sem um olho, precoce. meu primeiro livro foi de mitologia grega: pq Édipo demorou tanto para decifrar o enigma? decifra-me ou devoro-te? pq não se deixou devorar? não escovava os dentes. não comi o bife! odiava circo. já era grande. sabia que minha cabeça era pequena para tanta idéia. dor. tinha sempre 2 anos a mais. fui apresentada ao vinho. devia ser o sangue de alguém muito bom. a cerveja devia ser o xixi de alguém amargurado. os grandes monstros estavam escondidos nas montanhas. beijar era molhado. mas era necessário escovar os dentes. minha cabeça começava a doer de tanta idéia. coroa de Cristo. comecei a ensinar minha boneca a escovar os dentes. queria combinar boca e unhas com o vinho. meninos são legais. me olham quando vermelho. quero saber da idéia que tem dentro da cabeça de cada pessoa. mistério. psicologia. minha cabeça continua pequena pra tanta idéia. análise. descubro qual meu tipo. descubro que tenho uma sombra. mantenho segredo. mistério. trauma. análise. a realidade não é essa que aprendemos na escola. o tempo não existe. todos estão conectados. mistério. idéia de criança. circuambulação. confirmei agora. já sabia. olho meu corpo. ele cresceu. quer saber de desejo. quer saber de meninos. quer saber o que se passa na cabeça deles. me entrego. amo. já posso contar meus segredos. já posso beijar meninos pois já escovo os dentes depois de comer um bife com meus lábios carmim. não carrego mais a coroa de Cristo como segredo. minha cabeça não dói e minhas idéias agora cabem todas dentro dela. Édipo não foi devorado.


meu outro eu que é demônio

tento a fuga, dissimulo
finjo que não sei
mascaro, não encaro
mas eles estão a espreita
me vigiam, me extraviam
sabem de mim

não batem a porta, já estão dentro
vem ter comigo na noite da minha inconsciência
atiram flechas em meu peito
me deixam marcas profundas

só assim os vejo
só assim me vejo

meu outro eu não é o Deus que tanto sei
meu outro eu tem a face daquilo que não quero revelar
quanto mais divindade tenho em meu dia
mais demoníaca é minha noite
são eternas chamas que queimam, abrasando-me

dança incandescente entre sombra e luz
aliança harmoniosa e transcendente
entre meu eu que sei
e meu eu que hei

2 de outubro de 2010

1 de outubro de 2010

mural

consagro minhas palavras à lógica do acaso
da espontaneidade e da ambiguidade
tenho certo compromisso com a desordem
os caminhos trilhados pelas minhas palavras são sempre tortos
mortos, seriam os caminhos da métrica da forma
só posso acreditar nas palavras vivas
que transbordam da melodia da minh’alma
devo a ela minhas palavras
de resto nada sei

26 de setembro de 2010

aos eruditos

não quero sentar-me à mesa com os eruditos
do que ali é posto já hei farta

minha fome é da poesia sem métrica dos becos
do discurso sem lógica dos bêbados
do lirismo pungente dos mendigos
do amor vil e livre das alcovas
do prazer blasfemo do sacrilégio
da convulsão do amor sombrio dos desconhecidos

minha fome é de vida sem poeira
quero me fartar daquilo que não importa
daquilo que leva a perdição
quero ser o movimento daquilo que o olhar tétrico admira
estou faminta de alimento que não é posto nessa mesa sepulcro

quero o fedor de um corpo cansado
e não o frescor de quem está a sombra
quero o cheiro do gozo e do suor dos corpos
e não das fragrâncias florais mortas
quero encher o copo de vinho barato
que atordoa a mente, desperta os demônios

prefiro à vida aos eruditos
prefiro à fome a este alimento veneno
prefiro a dor intensa da morte violenta
do que a vida morna dos que sentam a mesa
estátuas pensantes do alheio, polidas, ocas
eternas em sua forma única, tediosa
surdos que ouvem tão somente seu próprio eco

quero o que não serve a razão
o que não cabe a erudição
posto que é vida
à erudição não cabe a vida
à erudição cabem os restos, o escarro

perguntai ao que agoniza nas ruas
nele está toda a erudição da vida
e ele não está à mesa

20 de setembro de 2010

sangue índio

filha das terras de lá
dos homens primitivos de outrora
homens de espírito livre
que a floresta ao se abrir e secar
fez perecer, se perder
dilacero meu corpo e dele vejo sair
sangue desse povo
sangue índio
sangue que brota do meu coração valente
percorre minhas veias e me traz a poesia do mato
tenho em mim sangue de canção
mesmo estranha em minha própria terra
meu coração ainda canta, dança e faz oferendas

a fogueira que me aquece hoje vem do brio desse sangue
o ardor que sinto vem da sangria constante
errante, me mantenho distante desse mundo prudente

sou guerreira de exaurido coração
do humano quero apenas o que não me cerca
e quando for terra novamente
não chorarei a morte, pois não sei morrer
meu sangue é vivo, carmim
e em mim, é laço eterno, secular

14 de setembro de 2010

a liberdade de uma tempestade plena

intensidade é um termo que me define bem
tempestade também
pra mim é sempre, nunca, tudo, nada
a dor é intensa
o amor é imenso
o desejo é urgente
tudo arde, tudo tarde
ora avanço, ora retrocedo
até os ventos fracos são intensamente fracos
não que eu seja uma pessoa efusiva
tenho a sorte que algumas tempestades acontecem quando muitos dormem
desconheço a coerência do raso
tudo acontece num movimento intempestivo, súbito e profundo
e essa força tanta
que me faz originar, falecer, queimar e sangrar
corre calma e licenciosa pelas minhas veias
permanentemente

12 de setembro de 2010

a viela-córrego

o santuário era grandioso
expressão humana da manifestação do ato divino
daqueles que te fazem sentir-se bem pequenininho
o sentimento, ah! o sentimento que me guiou até aquele santuário
também era grandioso, divino, de igual tamanho
logo, eu não era tão pequena
meus ouvidos sentiam a lírica da orquestra
mas meus olhos não acompanhavam
não via a orquestra
me aproximo do altar em busca da lírica
que agora está na viela de pedra lousa ao lado do santuário
é uma viela-córrego
não vejo sua fonte, apenas seu terçar
as águas desenham ondas sinuosas e cada redemoinho
parece conter uma vida, um universo singular
quero sentir em mim essa vida
avanço em direção a viela-córrego
deságuam em mim as águas
agora sou a fonte e o leito
...desperto!

o moribundo-sombra

dia desses, num determinado lugar
pus-me a observar os olhares das pessoas enfermas
dia frio, cheio de tormentas
(talvez não fosse o dia frio nem de tormentas mas o que eu observava)
as enfermidades eram distintas, imprecisas
mas os olhares
tenebrosos, distantes, lacrimejantes, cerrados, fugidios
tinham certa semelhança
o olhar que denuncia um corpo que agoniza
um corpo que anuncia que a alma quer partir
parece chegado o tempo da alma padecer
ou da alma ser ouvida
porque a enfermidade fala da condição da alma no mundo

ali, naquele lugar
num momento preciso
como num movimento ensaiado
todos os olhares se voltam para uma figura esquálida, arqueada, minguada
que adentra o espaço
tem os punhos e os pés algemados
também era um enfermo
também sentia dor
também buscava entendimento para a condição de sua alma no mundo
mas trazia consigo explicitamente seu delito
(esse foi o agravo, de ser explícito, pois apenas os delitos ocultos são aceitáveis)

seu olhar não podia ser visto
estava cabisbaixo
talvez por já ter entendimento sobre os olhares de censura que
encontrariam os seus
seus olhos agora eram os olhos da figura de lei que o acompanhava

naquele ambiente os olhares se transformaram
ao fitar aquela figura enferma e criminosa
os sussuros diziam de um certo conforto e desconforto
conforto porque a alma daquele moribundo certamente estava em pior situação
tinha, além de uma enfermidade, um crime
e que bênção e alívio saber que existem criaturas
em condições piores que as nossas
desconforto causado pelo medo do sombrio daquela figura
pelo sombrio individual espelhado naquele moribundo

o moribundo é levado ao guerreiro-heróico na figura do médico

agora, os sussuros são de alívio, os olhares se acendem
há uma aura mais leve no ar
que doce a ilusão desse segundo
onde se pode tentar enganar a alma
onde se pode tentar fugir da sombra

o que não se sabe é que ela só foi ali, numa breve consulta médica
e já retorna
talvez em vias de cura para continuar nos acompanhando
vida afora, vida adentro.

8 de setembro de 2010

sobre as ervas

caía a noite
a brisa fria que gelava os corpos
a sombria escuridão da inconsciência
a lua vigilante flagrada pela coruja que escapa à vista
por causa da doença do pequeno adoentado
a mais velha de olhos esfumaçados de tanto ver coisa desse mundo
pega em suas mãos uma vela já usada de chama pequena
e põe-se a andar rumo aos fundos da casa grande onde fica o quintal de ervas
a filha do meio resmungando segue os rastros da pequena chama
não era a chama que guiava a velha
era o cheiro das ervas
a mística não se conta
é preciso calar-se ao colher as ervas pois estão adormecidas
a erva se permite colher, se mostra na escuridão
pois como é sabido há o tempo de colher
para a velha seu campo de domínio é o domínio da natureza esquecida
para a filha
almas parecidas, interligadas, mas separadas pelo amargor dos corações
à sombra da velha mãe-bruxa
rende-se apenas por um segundo quando as mãos se tocam no momento da colheita
e é quando se vê o quanto as amarras do coração amargurado
são feridas profundas, cálidas
não há preces que se possam fazer
apenas colher vez em quando junto as ervas esses pequenos momentos de ternura esquecidos ou nunca vividos
não posso lançar luz ao que vejo, observadora de mim mesma
ali frente a três gerações
apenas posso lançar uma luz tênue sobre minha própria escuridão
para que não me perca junto as sombras do passado
- fico com a leveza das ervas -
que iluminam o caminho da cura de minha alma febril.

do virtual

o olhar intenso, curioso
o olhar que desnuda, que deseja
deve ser seguido pelo movimento das mãos rumo ao objeto desejante

mas quando o objeto desejante está fora do alcançe
das mãos agora tão desejantes pelo toque quanto os olhos?

seria apenas a contemplação da imagem, reconfortante a um coração ávido?
é possível manter o desejo do olhar pela imagem sem o toque, sem a intimidade?

talvez seja a palavra o elemento de ligação entre o olho, a imagem e o desejo
talvez a palavra seja o elo que por um breve e curto espaço de tempo possa manter acesso
o desejo da ânsia do encontro: olhar – imagem – corpo – alma

2 de setembro de 2010

do meu disfarce

isso de ser assim
na medida e contida
é meu disfarce no mundo
no fundo
sou brejeira
descalça, sem alça
'bicho do mato’
ave de rapina
serpente rasteira
sorrateira
minhas raízes estão em outro lugar
eu sou de outro lugar
sou da terra
do mato
da natureza viva
primitiva
canto com os pássaros
levo flores aos que aqui estão
faço banquetes esfuziantes
brindo aos deuses
me divirto sendo travessa
e estou firme na certeza
que na próxima estação
vou despir-me de meu disfarce
quero deixar-me assim
como vim
sem vestes que prendem meu corpo e minh’alma
conseguirás me ver?

1 de setembro de 2010

pergunte ao sapo

noite alta lua baixa
pergunte ao sapo
o que ele coaxa

(essa é do Paulo Leminski, e tinha de estar por aqui...)

29 de agosto de 2010

do hábito de mentir

e que não vire hábito isso de ser sincero
fico magoada quando não me contas uma mentirinha apenas
acredites
volto a confiar em ti depois de uma e até duas mentirinhas
mentes sem remorso
perdoo-te antecipadamente
só pela graça das coisas não serem sempre ‘do modo certo’
mas disfarças bem teu receio
odeio mentiras mal contadas!

achei minhas asas!

achei minhas asas e agora não deixo mais de voar
encontrei elas lá
escondidinhas
cheias de poeira, coitadinhas
meio abarrotadas embaixo de tanto ontem

novamente o desejo

descobri que havia engavetado meu desejo porque ele
travesso e imortal
desandou a revirar as gavetas de meu corpo com tal intensidade
que já não cabia mais dentro de mim
irrompeu em chamas como a fé dos desesperados
libertei-o então, dando-o asas
assim ele pode ser sair todas as noites
mas com hora marcada para voltar!

poeminha piégas da dúvida romântica

se cada um sabe de si
e Deus sabe de todos (e é por todos)
porque perguntas de nós à mim
pobre de mim que mal sei de mim
quiçá de ti ou de nós
te digo que não precisas querer ir longe para tal resposta
te percebo
creio que teus devaneios sobre ti e sobre mim
tem resposta fácil, singela, banal até
não te machuca minha ausência?
não tens fome de mim?
alma minha
não partas tão cedo mesmo antes de chegar
rogue a Deus que a resposta somente se apresente quando
estivermos eu e tu
não tão distantes assim

chamego

te digo com certeza
e convém que se repita a palavra certeza para que não haja dúvidas
da necessidade do chamego
mesmo que seja a intenção de um chamego, um gesto tímido em direção ao outro
(porque de início tudo são apenas intenções)
o chamego movimenta e acende o desejo
digo do chamego bem feito, claro
daquele toque lascivo,
da chama
do desassossego de um sussuro
do desequilíbrio de um toque
a sensação de um bom chamego pode levar a um frenesi
até a um estado febril
se não for seguido de uma entrega
e talvez outra
e outra
e até....
porque a entrega quando precedida de um bom chamego sempre segue adiante...

28 de agosto de 2010

do cansaço

quer por favor surpreender-me?
cansei disso de ser morno
do cansaço depois de um dia de trabalho
do cansaço depois de tantos anos de vida
do cansaço depois de não sei o quê
quero o susto, a surpresa
o frio na barriga
o desespero
o espanto
o desejo
a novidade
quero uma invenção a cada dia
e se não podes me acompanhar nisso
então, despeço-me de ti neste instante
ficas com teu cansaço, com teu peso, com tuas medidas
teu olhar duro que me interroga
deixo-te para trás
vou em busca de algo expressivo, depravado, desvairado
louca?
não, apenas não sinto cansaço!

infância (do que mais me lembro)

tempo longínquo e bucólico
de imagens povoadas de árvores, bosques, animais domésticos, selvagens, rios, riachos, de rituais de plantio e de colheira, abate de animais
os excentricos rituais familiares....
luz e sombra
família excessiva, dramática, eufórica, ardilosa, amorosa, frenética, misteriosa, colorida, seca... umida e sem medida
tudo imenso, desde a casa, a mesa, o rancho, o número de pessoas, a comida, o afeto
a ‘tata’, que me cuidava e que todos juravam de pés juntos que era bruxa
dizia-se amiúde que quando ela dormia em casa, manhã seguinte o cabelo dos cavalos e o meu sempre apareciam com nós que ninguém conseguia desfazer
dela, nada se sabia
nem sua idade, procedência, sobrenome, não tinha rg, portanto não existia ‘oficialmente’
era muito velha e tinha a face idêntica ao chão do sertão
andava descalça e percorria grandes distâncias assim, sem nada nos pés
alimento para minha imaginação
na casa grande de meus avós,
as paredes tinham vida
eram cheias de quadros com imagens de anjos e santos,
o imenso relógio de carvalho que insistia em se fazer ouvir com suas assombrosas badaladas a meia noite, sempre e sempre
nas estantes as esculturas de santos dividiam espaço com muitas bebidas e conservas apetitosas
ao lado da casa grande, um salão de festas
festas onde criança não podia participar
(apenas espiar)
espiando, via o movimento de chegada e saída de pessoas
os músicos, a alegria, as danças
o encontro de homens e mulheres
a proximidade
cenário que despertava em mim algo que não entendia
mas queria entender, ou sentir, não sabia ao certo...
recordo ainda, das noites que passava na janela, a espreita
noites na penumbra
onde me pendurava com meus brinquedos de criança querendo envelhecer um pouquinho
que fosse só para ter um brinquedo novo de adulto...

madrugada dessas...

são três horas da madrugada de um dia qualquer
e essa lua imensa que adentra meu quarto
através da janela entreaberta
irrompendo meu sono inquieto
(tenho pra mim ser ela a causadora do meu sono inquieto)
não pede licença
não se anuncia
não bate à porta
simplesmente está ali
me compele a olhá-la de perto
pede atenção
é legítimo seu apelo
quer mostrar-me algo dentro de mim:
a semente que germina, a flor que nasce frágil,
o ciclo que se renova
a fertilidade, o desejo, o ardor da vida
a intimidade
os caminhos da entrega...
....de certo que não é um dia qualquer...
.... de certo que já não sou a mesma, mas cada vez mais EU mesma!

da forma

não tenho opinião formada sobre nada
minha opinião é sem forma mesmo
hoje penso assim, sou assim
amanha assado
tudo tem a forma fulgaz de um instante, um momento
do meu
e apenas do meu jeito vou formando meu jeito sem jeito de ver (e de ser) o mundo
mas estou convencida de que o importante vai além da forma
além dos olhos
mas não além da alma...

pequeno manual de instruções

mas pra mim é assim...
a imagem precisa ser seguida da palavra....
é sempre pela palavra...
não a palavra fria, óbvia, monótona...
o secreto da palavra...
não quero o rápido, o explícito, o ‘pra já’...
quero a palavra que desnuda, atravessa, penetra
mas que não é escancarada
a palavra que gera a dúvida, o meio-riso, o quase, o talvez
a palavra que vem nem sei de onde e me arrebata, me toma, me possui
a palavra é a senha, e só ela precede o toque
enfim, que pra mim... tudo é a palavra!
me fere, me arde e me assopra...
nada...
tudo...
e o interlocutor?
... tens acima então, o pequeno manual de instruções de minh’alma (?)

da libertação...

na alvorada de hoje um passarinho me contou ao pé do ouvido que uma bela moça que outrora vivia aprisionada (ela mesma era seu carcereiro)...
libertou-se e fugiu (!), escafedeu-se...
ninguém sabe, ninguém viu...
de certo, apenas a certeza de que já não é mais a mesma...
e que vaga, silenciosamente, levemente e felizmente em busca de si mesma....

16 de agosto de 2010

...

a foto na parede diz de um redemoinho de sentimentos, de ausencia de razão, de sentido,
falta oriente, orientação
falta a proximidade que aquece, que conecta, que me diz quem eu sou
me sinto nua, muda, sem pulso... em um labirinto sem o fio de ariadne
preciso ouvir um coração pulsante que seja meu imã para o retorno a vida
a quietude do escuro e do silêncio não trazem consigo a paz
o pulsar da vida parece distante, estendo meus braços em sua direção mas não alcanço
meus sonhos desenham uma magia lírica de tempos atrás, tempos longinquos
é preciso limpar as janelas para ver a vida lá fora...
e preciso abrir o coração para sentir a vida aqui dentro...

segunda...

engana-se quem pensa que o cheiro vai embora no banho seguinte..
o cheiro penetra, invade, atravessa...
se mistura
permanece...
e depois, fica a essência nossa
do eu e do tú
eternizada no efêmero e embriagante odor
do efêmero e embriagante encontro...

de mim....

perdi meu rg, cpf, carteira de trabalho
chave de casa, senha do banco
o rumo
a direção
o sentido
me encontro perdida no caminho seguro, na encruzilhada sombria, fria e solitária
para onde olho, norte ou sul
nada tem forma
saio da casca, da concha, do vazio
do antes 'certo' para o duvidoso
dói
o que trago comigo é uma vaga idéia
do que mesmo?
desejo intenso e desesperado de 'ser'
e do encontro inevitável comigo mesma