Era desses tipos excêntricos que são apenas nas
noites. Apenas. Certa vez, depois da exaustão da existência soturna, resolveu
entregar-se a ela, ainda enquanto. Após a ausência no dia, chegou
em casa, espalhou suas coisas, como de costume, procurou em vão por
comida saudável, abraçou seu cachorro, não abriu a correspondência, deletou
mensagens telefônicas sem ouví-las, desprendeu-se do dia, apagou memórias, deixou de sentir seu
coração apertado, não viu a lágrima, nem sentiu seu gosto amargo, leu as
poesias que lhe mandavam (todas), olhou-se no espelho, pensou num banho,
aqueceu-se por dentro, sentiu a pele, pois era assim que gostava. Entregou-se
ao leito enquanto a noite ainda cedo. Em sua cama havia um anjo antigo, que
sonhava. Viu seu sonho. Permitiu-se. E nunca mais acordou.